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MESA 1 – Gênero e Diversidade Sexual: e a Psicologia com isso?
 
Postado em 9/6/2016

Os desafios para a Psicologia no cuidado com as questões de gênero e sexualidade foram a tônica da primeira mesa de debates do I Seminário Mineiro “Psicologia, Gênero e Diversidade Sexual”, realizado pelo Conselho Regional de Psicologia – Minas Gerais (CRP-MG), nos dias 2 e 3 deste mês, em Belo Horizonte.

Participaram como convidadas as psicólogas Ana Ferri, que há mais de dez anos trabalha com as temáticas de Direitos Humanos, sexualidade, gênero e diversidade sexual; Jaqueline Gomes de Jesus, coordenadora do projeto Diversidade Sexual e de Gênero na Escola e do curso Gênero e Diversidade na Escola, ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também autora e organizadora dos livros "Transfeminismo: Teorias e Práticas" e "Homofobia: Identificar e Prevenir"; e a antropóloga Flávia Teixeira, professora adjunta da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia e integrante da rede de trabalho sobre gênero, migrações e tráfico de pessoas do PAGU/Unicamp. A conselheira e coordenadora da Comissão de Psicologia, Gênero e Diversidade Sexual do CRP-MG, Dalcira Ferrão, mediou a mesa.

A primeira convidada a se apresentar na mesa, que teve como título “Gênero e diversidade sexual: e a Psicologia com isso?”, foi Jaqueline Gomes, que pontuou as dificuldades da Psicologia em lidar com os preconceitos relacionados a gênero e diversidade sexual. “Vivemos numa sociedade heterocêntrica, que acredita que só existe uma sexualidade, a heterossexual”, disse. Segundo Jaqueline, trata-se de um desafio muito complexo, pois gênero é uma construção de uma sociedade que possui três grandes traumas: da colonização relacionada ao genocídio indígena, à crença que se pode excluir pessoas para se manter e se valorizar; da escravidão, que traz a ideia fundamental de subalternizar o outro; e das ditaduras civil e militar que dominaram o país, trazendo a ideia central de que não se deve falar sobre determinados assuntos.

“Temos que superar tudo isso e entender que a expressão de gênero de uma pessoa não define sua orientação sexual. Vivemos hoje uma grande diversidade e a identidade de gênero é atitude individual frente à construção social de gênero. A cidadania tem a ver com que a Psicologia deveria estar pensando, das consequências da falta de cidadania, da falta de humanidade, que é uma luta por liberdade”, concluiu a psicóloga.    

Mea culpa -
Ana Ferri se apresentou em seguida e reforçou que a Psicologia está atravessada pelas discussões de gênero. “O que a Psicologia tem a ver com isso? Tudo!”, afirma. Segundo ela, presume-se na construção da sociedade que exista uma linearidade entre sexo, gênero, desejo e prática sexual, naturalizando que se uma pessoa nasce do sexo masculino terá desejo por mulheres e vice-versa. “Essa lógica coloca a heterossexualidade como norma, valorando as outras sexualidades como ruins, ilegítimas e não naturais. E nossos discursos científicos contribuíram para essa naturalização. Nosso discurso científico é político. É um campo de discurso ideológico. Precisamos fazer essa mea culpa, porque durante muito tempo a Psicologia contribuiu para reiterar a lógica da heteronormatividade”, afirmou.

Segundo ela, é preciso desconstruir essa lógica e pensar outras maneiras de falar sobre gênero e sexualidade, compreendendo o contexto de vulnerabilidade da pessoa e da família, que também sofre preconceito. Outra questão colocada por Ana Ferri diz respeito à inserção da discussão da despatologização junto à de medicalização. “Trata-se de um processo que vem transformando questões domésticas em problemas médicos; questões sociais em questões individuais. Uma lógica que pega uma questão muito mais ampla e coloca no indivíduo. Vamos parar de individualizar problemas que são sociais”, convocou.

A convidada encerrou dizendo que a Resolução 001/99 do Conselho Federal de Psicologia é o grande marco que a Psicologia tem abordando a atuação da(o) psicóloga(o) nas questões sobre sexualidade e gênero, proibindo a categoria de oferecer tratamentos no sentido de cura das homossexualidades. “O argumento das pessoas que querem curar gays, lésbicas ou até mesmo travestis e transexuais é de que há sofrimento e elas têm direito de acessar serviços psicológicos. Acontece que não há qualquer evidência científica de que a orientação sexual e nem mesmo a identidade de gênero possa ser alterada por meio de psicoterapia. A Psicologia não tem ferramentas para alterar a orientação sexual ou identidade de gênero de alguém”. Ana Ferri finalizou pontuando ainda que “o sofrimento vem de como a sociedade exclui essas pessoas”.

Atendimento - O encerramento das apresentações da primeira mesa do Seminário teve como tônica o atendimento na prática, por meio da palestra de Flávia Teixeira, que conduziu sua fala em torno do trabalho desenvolvido pela equipe de saúde do Ambulatório de Atendimento à Saúde Integral de Travestis e Transexuais de Uberlândia, onde o fazer da Psicologia foi apresentado, levando em consideração instrumentos internacionais existentes, capazes de orientar esse cuidado.

A antropóloga afirmou que a assistência à saúde das travestis, mulheres transexuais e homens trans demanda atenção em diferentes níveis, desde o atendimento primário à saúde até o atendimento especializado, incluindo situações de urgência/emergência médica, com competência e respeito. “Somos nós que devemos perguntar à(ao) usuária(o) o que ela(e) espera do nosso atendimento e qual é a sua demanda. Também temos o dever de informar as possibilidades ofertadas e destacar que existe uma escuta individualizada”, explicou, chamando a atenção para o respeito à identidade de gênero, nunca tratando a pessoa trans como se fosse somente um corpo em conflito com sua identidade.

Para Flávia, a todo o momento é preciso mostrar que o atendimento é um espaço de cuidado e não de favor. Um espaço de segurança para a(o) usuária(o) e para a família e também de educação para as outras pessoas que circulam pelo ambulatório. “Assim você consolida esse sujeito e ajuda no empoderamento dos grupos”, encerrou.