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MESA 2 – Identidades e subjetividades LGBT
 
Postado em 9/6/2016
Para encerrar o primeiro dia do I Seminário Mineiro “Psicologia, Gênero e Diversidade Sexual”, realizado nos dias 2 e 3 deste mês, em Belo Horizonte, o Conselho Regional de Psicologia – Minas Gerais (CRP-MG) promoveu o debate “Identidades e subjetividades LGBT". Participaram como convidadas/os Rose Dias, graduanda em Educação Física e especialista em Ética e Direitos Humanos em Educação, integrante do Conselho Nacional de Combate à Discriminação da população LBGT e da Coordenação do Conselho Estadual LGBT-RS; Julinéia Soares, psicóloga e mestranda em Estudos Psicanalíticos, militante da Rede Afro LGBT Mineira; Léa Pinho, graduanda no 5º período em Ciências Sociais; Ronan Borges, graduando em Psicologia, membro da Comissão de Psicologia, Gênero e Diversidade Sexual do CRP-MG; e João Nery, psicólogo, escritor, primeiro homem trans operado no Brasil, ativista em Direitos Humanos. O conselheiro presidente do CRP-MG, Roberto Domingues, coordenou os trabalhos.

A primeira palestrante a se apresentar foi Rose Dias, que pontou a necessidade da militância ter estratégia. “Se estamos aqui tratando das questões das subjetividades, das nuances humanas, temos que dizer que somos pessoas, não interessa nossa identidade”, iniciou, ela.

“O que eu posso propor enquanto militante é burlar esse momento histórico e tentar manter o pouco do que já conseguimos. Temos que lutar pelo Plano Plurianual 2016/2019, sancionado pela presidenta Dilma, contendo como prioridades Direitos Humanos, demandas históricas do movimento LGBT. Vamos minar esse processo para garantir que o PPA seja cumprido”, enfatizou Rose, que encerrou fazendo o alerta “temos que nos articular o tempo todo”.

Resistir e participar -
Julinéia Soares se apresentou logo em seguida e iniciou dizendo que “a estratégia que eu tenho desenvolvido tem sido a de resistir ao ideário de que não devemos militar, participar politicamente”. Ela expôs um vídeo com o ator Alexandre Frota sobre um estupro que cometeu em uma mulher de religião de matriz africana e lançou perguntas às(aos) psicólogas(os) presentes: quanto de Alexandre Frota há em nós? Na defesa das opressões que nos tocam mais diretamente e no uso das que nós não reconhecemos para fazer o outro sofrer, como seria se ele chegasse em  nossos consultórios? Negaríamos suas questões para impor as nossas?”. 

Para Julinéia, as identidades vêm servindo à categoria para enfrentar as várias formas de opressão que propõe combater, mas, por vezes são enrijecidas, colocando determinadas pessoas em atos muito fixos das disputas pelo poder. Por isso, segundo ela, é importante refletir se a elaboração de estratégias conforme este pensamento realmente funciona. 

Não se normalizar para escapar - “Nós subvertemos o gênero com nossos corpos”. Assim Léa Pinho iniciou a apresentação afirmando que “a condição de homem sempre me foi negada e a condição de mulher nunca me foi concedida”. Para Léa, antes da criança nascer, quando se faz o exame de ultrassom, já se inicia um processo de linguagem do seu corpo. Neste momento já começa a desencadear a exclusão a partir do binarismo. “A solução é não normalizar para escapar”, disse pontuando ainda que quando se pensa em Psicologia não-normalizante está incorporada à diferença.

“É muito importante que nos debrucemos sobre as teorias para que se possa falar desse outro lugar. Desconstruir as ideias, a normalização, o enquadramento das nas normas heterocisnormativas”, encerrou.

Preconceito dentro do movimento - A discussão proposta por Ronan Borges foi do preconceito dentro do próprio movimento LGBT. “Vemos entre nós o movimento GGG, de homens gays brancos, classe média, que cultuam o corpo e que tem um discurso machista, sexista, transfóbico, misógino e racista. Por que esses preconceitos dentro do movimento? Essa naturalização dos corpos acaba perpassando por todos esses preconceitos”, ponderou.

Para ele, essa situação ocasiona, inclusive, violência. “É uma questão social, enraizada. Encerro fazendo a pergunta a vocês: como nós da Psicologia podemos promover a desconstrução destas opressões?”, concluiu Ronan.

“Somos todos invizibilizados” - João Nery foi convidado a encerrar a fase de apresentações da mesa. Segundo ele, os homens trans ainda são invizibilizados, por isso desenvolve um trabalho nas redes sociais mapeando por meio do Facebook homens trans que se apresentam a ele e lista de serviços e profissionais, incluindo psicólogas(os) que realizam atendimento especializado e qualificado à  população transexual. 

“Infelizmente, a maioria das(os) psicólogas(os) não sabe como tratar, como lidar conosco e a responsabilidade disso é da formação, que não tem a disciplina de gênero. Proponho a vocês, estudantes aqui presentes, que façam um abaixo assinado para ter, nem que seja uma disciplina eletiva”, afirma João Nery.
Nery falou sobre a diferença entre identidade de gênero (como o sujeito se percebe, se sente) e orientação sexual (o desejo sexual e afetivo). Para ele, esse entendimento ainda é falho entre as pessoas, inclusive do segmento LGBT.

João aponta também sobre as violências que acometem aos homens trans como o estupro corretivo, a falta de inserção no mercado formal de trabalho e a não-garantia ao acesso à saúde integral.

João Nery finaliza afirmando que “não é a biologia que define meu gênero e sim meu gênero que me define!”.