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MESA 4 – Interseccionalidade: LGBTfobia e atravessamentos
 
Postado em 9/6/2016

A mesa 4, realizada no dia 3 de junho, tratou do tema: “Interseccionalidade: LGBTfobia e atravessamentos”. O debate foi mediado pelo psicólogo, escritor e primeiro homem trans operado no Brasil, João Nery.

A psicóloga, doutoranda em Psicologia e vice-coordeandora do Instituto Mineiro de Saúde Mental e Social, Tayane Lino, apresentou o conceito de interssecionalidade que foi cunhado pela pesquisadora feminista norte-americana Kimberlé Crenshaw. “A interseccionalidade vai focar em dinâmicas e processos de opressão, subalternização, inferiorização. Quando falamos de interseccionalidade não estamos falando de uma lógica de sobreposição identitária. Estamos querendo entender como ser mulher, negra, pertencente à periferia ou não, lésbica ou trans, vai produzir efeito na materialidade dos corpos, na percepção sobre a vida e dos outros sobre essa pessoa no mundo. É menos do que construir a hierarquia da opressão, mas é pensar como essas coisas se articulam produzindo efeitos muito distintos. Ser uma mulher lésbica branca não é a mesma coisa de ser uma mulher lésbica negra. Ser uma mulher negra heterossexual não traz a mesma experiência do que ser uma mulher negra lésbica”, explicou Tayane Lino.

Segundo Tayane, a interseccionalidade pode ajudar, por exemplo, na reflexão de situações como o feminicídio, em que a maioria das vítimas são mulheres negras. “Será que essas mulheres são mais mortas porque são mais frágeis? Por que seus corpos foram construídos historicamente como corpos que aguentavam apanhar mais, ser escravizados, que produziam como efeito saciar todos os desejos dos seus senhores? Isso é para pensarmos em como a interseccionalidade vai produzir sujeitos mais ou menos vulneráveis”, argumentou a psicóloga.

Tayane Lino reforçou que ao se pensar políticas identitárias é importante considerar a interseccionalidade. Dentro do grupo LGBT haverá diversos marcadores que irão produzir experiências distintas. O negro homossexual, por exemplo, representa um questionamento ao ideário do homem negro como extremamente viril e potente. Isso trará implicações para sua experiência que são diferentes da experiência vivida pelo homem homossexual branco.

A doutoranda em Educação e especialista em História e Cultura Africana e Afro-Brasileira, Educação e Ações Afirmativas no Brasil, Megg de Oliveira, falou sobre os desafios que enfrenta na Universidade e nos movimentos sociais ao propor o debate sobre raça e orientação sexual. “O movimento negro não discute a questão LGBT e o movimento LGBT não discute a questão racial”, afirmou Megg.

Ela realiza sua pesquisa de doutorado na área de Educação e investiga a trajetória de professores homossexuais negros. Segundo Megg, o ambiente acadêmico ainda apresenta resistências a esse tipo de estudo. “Discutir racismo é discutir o privilégio”, afirmou.

Megg explicou que professores homossexuais negros enfrentam desafios tanto no campo profissional, uma vez que pessoas negras no Brasil historicamente enfrentam mais dificuldade de acesso à educação formal, quanto em relação à orientação sexual, uma vez que representam um questionamento ao estereótipo da hipersexualização do homem negro. “O homossexual negro é um habitante entre mundos. Ele não pertence nem a um mundo nem a outro”, relatou.

A representante da Rede TransBrasil, Sissy Kelly, falou sobre problemas enfrentados por minorias sexualmente discriminadas: população em situação de rua, trans idosas e idosos e pessoas que vivem com HIV/AIDS. “Não existem políticas públicas para travestis e mulheres trans em Belo Horizonte. Elas ainda vão para a ala masculina quando são internadas nos hospitais, abrigos e repúblicas”, denunciou.

Sissy Kelly também relatou as dificuldades vividas por travestis e trans que estão idosas. Muitas delas não conseguem inserção no mercado de trabalho e até voltam a se vestir como homens para serem mais aceitas pela família ou pelas instituições públicas de abrigamento. Sissy Kelly defende a criação de casas de acolhimento específicas para travestis e mulheres trans e relata que já sofreu preconceito em abrigos destinados a mulheres. “Criar casas para travestis e mulheres trans não significa criar guetos. Juntas, elas se fortalecem. O que eu quero é acolhimento respeitoso para minhas amigas depois que recebem alta hospitalar ou saem da penitenciária”, reivindicou. Segundo Sissy, o debate de questões ligadas à população LGBT não tem contemplado recortes como idade, sorologia positiva e situação de rua.