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MESA 5 – Políticas de resistência LGBT: ativismo e artivismo
 
Postado em 9/6/2016
 
A última mesa do I Seminário Mineiro Psicologia, Gênero e Diversidade Sexual discutiu “Políticas de resistência LGBT: ativismo e artivismo”. O debate foi mediado pelo graduando em Psicologia e membro da Comissão de Psicologia, Gênero e Diversidade Sexual do Conselho Regional de Psicologia – Minas Gerais (CRP-MG), Rodrigo Broilo.
O debate teve início com a apresentação de alguns resultados da pesquisa de doutorado realizada por Frederico Machado, doutor em Psicologia e professor do bacharelado e da pós-graduação em Saúde Coletiva da UFRGS. Frederico pesquisou o processo de formação da Parada LGBT de Belo Horizonte e chamou atenção para o fato de que os movimentos sociais promovem a expansão da política, compreendendo a política como o espaço do dissenso e da partilha do sensível.

Segundo Frederico, as primeiras ações que reivindicam visibilidade para a questão da homossexualidade em Belo Horizonte são registradas na década de 1970 e contaram com o protagonismo de Edson Nunes, que organizou o “I Simpósio de Debates sobre o Homossexualismo” (terminologia usada naquela época), em 1972. Nas eleições de 1982, Edson Nunes concorreu ao cargo de deputado federal e foi o primeiro candidato assumidamente homossexual a disputar eleições.

Na década de 1980 ganha destaque a questão do HIV/AIDS e em 1987 é fundado o Grupo de Apoio e Prevenção à AIDS de Minas Gerais (GAPA/MG). Desde que foi criado, o GAPA procurou desconstruir a ideia de que há ligação direta entre HIV e homossexualidade.  Na década de 1990 começam a surgir mais lideranças do então chamado movimento GLBT. Em 1998, ocorre a I Parada GLBT de Belo Horizonte. “Nessa primeira Parada muitas pessoas saem fantasiadas de ‘bichinhos da Parmalat’ para não serem identificadas. Se pensarmos como é a Parada hoje, houve muito avanço”. Ao longo dos anos se intensificou a luta pela visibilidade dos problemas que atingem lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.

O psicólogo Frederico Machado apresentou diversas conquistas realizadas pelo movimento social no sentido de garantir os direitos da população LGBT, como a aprovação de leis que proíbem a discriminação por orientação sexual. Segundo Frederico, depois de 2004 as políticas públicas voltadas para a população LGBT começam a extrapolar o campo da saúde, mas ainda estão longe de atingir um patamar satisfatório. Além disso, o professor avalia que a proliferação das diferenças relacionadas à população LGBT aumenta os desafios para o planejamento das políticas públicas. “A proliferação das diferenças não é só um processo identitário, mas é também produção de saber. Ela assume um lugar de desconstrução de muitos saberes, inclusive de alguns que foram construídos pela própria Psicologia”, argumentou.

O integrante e fundador dos coletivos Bacurinhas e Toda Deseo, Rafael Bacelar, tratou de experiências em que a arte dá visibilidade a questões relacionadas ao gênero e à diversidade sexual. Fundado em 2013, na cidade de Belo Horizonte, o coletivo arte ativista Toda Deseo procura atender demandas provindas principalmente de mulheres trans e travestis. “Fazemos da nossa narrativa um lugar de resistência, insurgência e crítica”, definiu Rafael. Segundo ele, se a criação de um mundo mais justo e igualitário parece utópica, a arte é um caminho interessante, uma vez que a arte é a realização do impossível.

Rafael Bacelar apresentou diversas intervenções já realizadas pelo coletivo Toda Deseo em Belo Horizonte. Entre as ações, ele apresentou a “Gaymada”, um campeonato Interdrag de Queimada que acontece em espaços públicos de Belo Horizonte e celebra a diversidade e o orgulho das pessoas serem o que quiserem ser.

Na sequência, Cristal Lopez, que também integra o coletivo Toda Deseo e é militante da Rede Afro LGBT Mineira, relatou sua experiência como mulher trans. Cristal contou que desde a infância se sentia mulher. Aos 12 anos, começou a tomar hormônios e jogou fora todas as roupas masculinas. Ela conta que o apoio do irmão mais velho nesse processo foi fundamental. O pai não aceitou a decisão e saiu de casa. Ficaram o irmão, a mãe e Cristal. “Minha mãe fez terapia comigo e isso salvou nossa relação”, relatou. 

Foi inspirada na mãe, dançarina afro, que Cristal seguiu a carreira artística: “percebi que com a minha arte eu poderia fazer política”. É nessa perspectiva que ela desenvolve os trabalhos no coletivo Toda Deseo. “Nas minhas performances sempre discuto a questão racial atrelada ao gênero, para mim não dá para separar. Eu tenho que enfrentar o fato de ser mulher, trans e negra”, relatou.

No encerramento do Seminário, Cristal Lopez se apresentou ao som das músicas “Coração do Mar” e “Mulher do fim do mundo”, ambas interpretadas por Elza Soares, e “O canto da cidade”, interpretada por Daniela Mercury.