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Conferência de abertura discute o passado e o presente da relação entre Psicologia e Educação
 
Postado em 7/7/2016

A Conferência de Abertura da I Mostra de Práticas em Psicologia e Educação mobilizou a atenção do público ao debater, em perspectiva histórica, a relação entre estes dois campos de conhecimento. Para discutir o tema “Relação entre a Psicologia e a Educação: passado e presente”, foram convidas a psicóloga, professora da UFMG e membro da diretoria da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional (Abrapee), Deborah Barbosa; e a psicóloga, professora da PUC SP e membro da Sociedade Brasileira de História da Psicologia, Mitsuko Antunes. O evento foi promovido pelo Conselho Regional de Psicologia – Minas Gerais (CRP-MG) na sexta-feira (1/7).

Deborah, que também integra o Grupo de Trabalho Psicologia Escolar e Educacional do CRP-MG, explicou que na tese de doutorado investigou qual é o nome mais adequado para o campo ou área de interface entre Psicologia e Educação. “É Psicologia da Educação? Psicologia Escolar? Psicologia Educacional? Não é a toa que essas nomenclaturas se confundem e nós também nos confundimos na nossa prática”, exemplificou.

Segundo ela, inicialmente, a denominação “Psicologia Escolar” foi utilizada para se referir à prática da Psicologia na escola, já a expressão “Psicologia Educacional” aparecia em referência aos debates de cunho teórico. Mas isso não se deu de maneira estanque e essas denominações já foram utilizadas com outras definições, inclusive o termo “educacional” já foi utilizado para dizer também do espaço escolar.

Em relação aos termos “área” e “campo”, Deborah explicou que considera “campo” mais adequado para dizer da interface entre Psicologia e Educação porque não faz referência apenas a campos geográficos, mas também diz de esferas invisíveis, como os campos eletromagnéticos.

Segundo a professora, no Brasil, o desenvolvimento da Psicologia está relacionado à Educação desde o início e é importante refletir sobre a interface das duas áreas. “A Psicologia na sua relação com a Educação não é só um pedaço da Psicologia. Costumo dizer que eu não sou só psicóloga escolar, sou psicóloga e me dedico a trabalhar as questões da Educação e essas questões são sociais, políticas, clínicas para além das questões só educativas”, defendeu.

Para Deborah, a atuação na Educação exige conhecimento das várias áreas da Psicologia e de outros saberes, como Sociologia e Antropologia. Ela também argumentou que é necessário maior aprofundamento dos profissionais da Psicologia nas temáticas da Educação. “A gente ainda vê muito pouco de Educação na Psicologia. O pessoal da Educação vê muito mais de Psicologia do que o que nós vemos de Educação”, avaliou.

Segundo a professora, as formas de atuação também se diferenciaram ao longo dos anos. “Já havia discussões críticas sobre Psicologia e Educação no final dos anos 60, início dos anos 70, mas ainda precisamos melhorar essa relação com a Educação. Ainda somos muito acionados na perspectiva de resolver o ‘aluno problema’ e devolver para a Educação. Como se tivéssemos que consertar uma peça que está estragada”, relatou.

Passado e presente
- Mitsuko Antunes falou sobre a história da Psicologia no Brasil e sua relação com a Educação. “A Psicologia que nós temos no Brasil se constituiu na Educação, essa é minha tese e ela só se fortaleceu ao longo das pesquisas que fiz”, afirmou. Segundo Mitsuko, a Psicologia se consolidou no Brasil com o ensino nas Escolas Normais – instituições criadas no Brasil durante o século XIX destinadas à formação de professores. Exemplo disso é que as três primeiras clínicas de Psicologia no país foram criadas em diretorias de ensino e essas clínicas tinham como função prestar atendimento a crianças com queixas escolares.

A pesquisadora divide a História da Psicologia no Brasil em três períodos: 1890 a 1930 – autonomização; 1930 a 1962 – consolidação; 1962 em diante – profissionalização. De acordo com Mitsuko Antunes, com o golpe civil militar de 1964 há a privatização da Educação e a Psicologia Escolar passa a ser preterida pelos profissionais que manifestam mais interesse pela Psicologia Clínica e posteriormente pela Organizacional. “Nesse momento se constrói a ideia do psicólogo como profissional liberal, o que nós nunca fomos. A Psicologia Clínica só atendia as elites. Depois vem a Psicologia Organizacional com a seleção, o recrutamento e o treinamento. Uma Psicologia que trabalhava para o patrão e não para o trabalhador”, avaliou.

Nesse contexto, as perspectivas liberais estão em ascensão no Brasil e levam a leituras individualizantes do desempenho escolar. “As crianças da elite não fracassam porque muitos são os meios para atendê-las. Por outro lado, se defendia a ideia de que as crianças pobres fracassam porque são pobres, não tiveram base cultural, passaram fome e isso comprometeu o desenvolvimento dos neurônios. Um processo social e cultural era visto como uma questão individual”, criticou. A pesquisadora também aponta para o uso frequente de testes psicotécnicos, que acabavam por segregar alguns estudantes, deixando-os sem acesso à educação.

Segundo Mitsuko no ano 2000 é possível observar uma mudança significativa que pode representar a conclusão da etapa de profissionalização da Psicologia no Brasil. “Coloco esse fim entre aspas porque a história é que nos dirá”, afirmou. O que ocorre é que no ano 2000 o Conselho Federal de Psicologia realiza uma Mostra de Psicologia e Educação e recebe mais de 10 mil inscrições de trabalhos. “Essa Mostra tem como norte o compromisso social, isso significa que a Psicologia na Educação não precisa ser elitista e excludente”, afirmou.

Mitsuko Antunes defendeu que a(o) psicóloga(o) que atua na Educação precisa estar inserida(o) nas políticas públicas. “O higienismo e a medicalização também são políticas públicas. É importante que a gente entenda isso e estejamos em todas as dimensões da política pública, até a base, que é a escola”, alertou.