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Palestrantes discutem articulação entre ética, política e democracia no exercício da Psicologia
 
Postado em 18/8/2016

A segunda mesa do seminário em comemoração aos 10 anos do Crepop, realizado em Belo Horizonte no dia 17/8, foi dedicada ao tema: “Diretrizes ético-políticas para o trabalho da(o) psicóloga(o) nas políticas públicas”. O debate contou com a participação da doutora em Psicologia Social e professora de Psicologia da PUC Minas, Paula de Paula, e do professor nos cursos de Psicologia e Direito e conselheiro do Conselho Regional de Psicologia – Minas Gerais (CRP-MG), Túlio Picinini. A atividade foi promovida pela CRP-MG.

A professora Paula de Paula iniciou sua participação realçando que a Psicologia não é um campo unívoco. “A Psicologia é um campo de dispersão e do ponto de vista metafórico poderia ser comparada a um arquipélago”, ponderou. Nesse sentido, Paula alertou que ao escolher uma abordagem, a(o) profissional deve estar atenta(o) ao tratamento ético que ela dá ao sujeito.

Em uma análise histórica sobre o exercício da profissão, Paula de Paula afirmou que houve uma mudança significativa na perspectiva profissional e que o compromisso da Psicologia com a emancipação humana, que atualmente congrega grande parte das(os) profissionais, não era tão forte no momento de regulamentação do exercício da profissão no Brasil, na década de 1960. “Nós [psicólogas(os)] estivemos durante muito tempo fora do debate político, público, do que define nossa convivência social e nossa liberdade. Tivemos uma história de omissão frente às desigualdades sociais porque éramos de uma classe média e trabalhávamos nos consultórios como profissionais liberais”, afirmou.

Na atuação em políticas públicas, Paula de Paula defendeu que as(os) psicólogas(os) podem contribuir com a recuperação de aspectos da singularidade frente ao universal que caracteriza essas políticas. A professora também argumentou que as(os) profissionais precisam ter cuidado com a forma como irão tratar as pessoas que usufruem dos serviços públicos. “É preciso ter cuidado para não tratar essas pessoas como eternas necessitadas, vítimas do sistema”, alertou.

A professora também destacou as contribuições do Crepop (Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas) ao produzir, organizar e compartilhar conhecimentos. “As pesquisas do Crepop levam em conta a fala das pessoas, como estão inventando formas de lidar com os desafios que enfrentam na prática. Isso é fundamental para a Psicologia e os profissionais em seus diversos campos de atuação”, concluiu.

Crepop em Minas – O conselheiro Túlio Picinini argumentou que há a necessidade de que se reflita sobre os conceitos de ética e democracia que estão norteando a Psicologia contemporaneamente. Segundo o professor, há visões bastante dicotômicas sobre essas questões e a clareza sobre a perspectiva que se adota é fundamental para o debate sobre a atuação ético-política em Psicologia.

Túlio articulou essa reflexão ao momento que o Brasil enfrenta atualmente e ao desmanche de políticas públicas que está em curso. “Não existem direitos conquistados. Não podemos ser pegos nesse sonho, nessa ausência de realidade. Direitos são disputados todos os dias e podem deixar de existir sim. Não existem direitos perenes”, afirmou.

Na sequência, o conselheiro realçou a importância do trabalho realizado pelo Crepop. “A existência do Crepop contribui para a manutenção de direitos e políticas. O Crepop não é bandeira de um determinado grupo político, ele pertence à categoria e à sociedade brasileira”, defendeu.

Túlio explicou que o CRP-MG manteve o trabalho do Crepop em Minas Gerais mesmo com o enfraquecimento da iniciativa em âmbito nacional. “A gente vê que as publicações nacionais foram suspensas nos últimos 3 anos, há inclusive pesquisas realizadas que estão pendentes de publicação”, afirmou.

O Crepop busca a qualificação profissional a partir da prática, levando à organização de referências e orientações para psicólogas(os) que atuam no campo das políticas públicas. O conselheiro explica que há propostas de substituição das pesquisas realizadas pelo Centro por consultas universais, mas na avaliação do conselheiro essa modificação traz problemas. “Consultas universais podem levar ao que vemos nas redes sociais: as pessoas dizem o que querem, como querem, sem qualquer compromisso. As pesquisas precisam ser efetivamente democráticas, mas não podem cair no democratismo, no populismo. Podemos ter outros instrumentos de consulta pública que darão voz a todos”, defendeu.