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Conferência discute aspectos norteadores para a atuação de psicólogas(os) nas políticas públicas
 
Postado em 18/8/2016

Na conferência de encerramento do seminário “10 anos do Crepop: por uma construção ético-política da Psicologia”, a professora do programa de pós-graduação em Psicologia da PUC Minas, Maria Ignez Moreira, tratou de aspectos teóricos, políticos e éticos relacionados à atuação da(o) psicóloga(o) nas políticas públicas.

Segundo a professora, no contexto das políticas públicas é importante ter em vista que a vivência plena da cidadania implica que todas as pessoas são portadoras de direitos. “Quando alguém tem um direito violado sofre não só a pessoa, mas todos nós, porque isso degrada a nossa condição humana”, afirmou. Por isso, a professora considera que há uma estreita relação entre a Psicologia e as políticas públicas, uma vez que essas políticas organizam dimensões que afetam a vida das pessoas.

Na relação entre profissionais e público que usufrui das políticas, Maria Ignez lançou mão de reflexões da filósofa Hanna Arendt, que argumenta que a política em sentido amplo só pode ser exercida com igualdade. Dessa forma, é muito importante levar em conta posições de poder e de saber que podem ser atribuídas às(aos) profissionais. “Todos são sujeitos de direitos e sujeitos políticos. As pessoas podem ser tuteladas, ele são ativas e potentes, mas as condições podem torná-las alienadas de sua própria potência”, defendeu. Por isso, a professora argumentou que é preciso abandonar perspectivas relacionadas ao assistencialismo, pois elas podem levar a silenciamentos e a posturas de se fazer pelo outro, no lugar de fazer com o outro.

Durante a conferência, Maria Ignez enumerou cinco aspectos que considera fundamentais para nortear a atuação de psicólogas(os) nas políticas públicas:

1 – A importância de se conhecer profundamente o território de atuação, suas instituições equipamentos, histórias. Para isso é necessário conversar com moradores, ler documentos, procurar conhecer como os grupos se organizaram, como as pessoas chegaram até aquele local. “Nós não podemos achar que vamos chegar e dizer que nós é que diremos como as pessoas devem se organizar”, ponderou.

2 – Refletir sobre o significado das políticas públicas adotarem as famílias como eixo central de atuação. “Precisamos entender o que isso significa. Tem uma expressão que eu arrepio quando ouço que é ‘família desestruturada’. Nunca conheci uma família desestruturada. Toda família é estruturada, mesmo que em torno de algo perverso. Quando se diz desestruturada é porque está falando a partir de um padrão heteronormativo, branco, de classe média”, afirmou.

A professora também chamou atenção para outro aspecto: “a centralidade nas famílias me faz desconfiar muito da centralidade nas mulheres. Como os homens são responsabilizados ou não pela sua paternidade? As mulheres são culpabilizadas e se culpam também. Temos que ter cuidado com isso. Tem um atravessamento de gênero que precisa ser pensado nas políticas de assistência. Precisamos urgentemente incorporar essa reflexão, porque elas nos faz pensar em relações de poder”, defendeu.

3 - Refletir sobre o discurso da promoção da autonomia. “Esse discurso pode estar entranhado da defesa do individualismo do capitalismo”, criticou.

4 - O dispositivo grupal é potente para questões de expressão, circulação de ideias e emoções. “Na década de 1980 eu trabalhava com um grupo de mulheres e nós pedíamos que elas fizessem uma linha traçando a sua vida. Depois a gente reunia essas linhas e víamos que elas se cruzavam, havia pontos de identificação e isso desculpabilizava as mulheres. No trabalho com grupos pequenos ou mais amplos o espaço da singularidade não deixa de existir, porque a singularidade é atravessada pelo coletivo e vice-versa”, relatou.

5 - Promover a articulação entre teoria e prática na atuação cotidiana. “Na Psicologia temos que registrar. Os operadores do sistema de assistência têm que ter tempo de registrar. Não podemos reproduzir a dicotomia entre trabalho intelectual e manual. A sistematização é um ato político. O produto do nosso trabalho é a produção de condições de existência que podem levar à felicidade. Felicidade não é artigo de luxo para quem é rico. As(os) profissionais precisam de condição para sentar, refletir porque isso também vai ajudá-los a não adoecerem”, argumentou.