Dia Mundial de Luta contra a AIDS: Psicologia atua na ruptura de estigmas e no acolhimento à vida

A maior barreira não é o vírus, é o preconceito. Combatê-lo é o primeiro passo para transformar a resposta à AIDS.

O dia 1º de Dezembro, data em que o mundo volta seu olhar para a luta contra a AIDS, é um convite à reflexão e à ação. Mais do que um marco, é um lembrete de que a batalha contra o vírus HIV é inseparável do combate ao seu mais persistente aliado: o preconceito. Para iluminar o papel fundamental da Psicologia neste campo, conversamos com o psicólogo e professor Hugo Bento, mediador do debate “Laços Contra a Sorofobia“, e com o conselheiro do CRP-MG, André Ferreira. Juntos, deram um panorama sobre os desafios e caminhos para uma resposta mais humana e eficaz à epidemia.

A atuação qualificada de psicólogas(os) neste campo é fundamental, e encontra respaldo em publicações de referência como a do CREPOP – “Atuação em Programas e Serviços de IST/HIV/Aids“. O documento reforça que “a inserção da Psicologia nos serviços deve estar pautada na garantia de direitos, na equidade e no enfrentamento de todas as formas de discriminação”, orientando uma prática que combata o estigma desde sua raiz.

Apesar de leis e normativas específicas, como a Lei nº 12.984/2014, que pune a discriminação por sorologia, a batalha contra a sorofobia esbarra em um muro afetivo. O professor Hugo Bento aponta que a principal mensagem de seu debate foi a constatação de que “a sensibilização afetiva para com as pessoas que vivem com o HIV continua sendo desafio para todos”. São décadas de discursos que associam a sorologia positiva à irresponsabilidade e à imoralidade, criando uma representação social profundamente estigmatizante.

Nesse contexto, a rede pública de saúde oferece serviços especializados fundamentais, como os Serviços de Atendimento Especializado (SAE) e os Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA), que contam com equipes multiprofissionais, incluindo psicólogos. Esses locais são portas de entrada para o diagnóstico, o tratamento antirretroviral, a dispensação de medicamentos como a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e a Profilaxia Pós-Exposição (PEP), e para o acolhimento psicológico essencial diante do diagnóstico e ao longo do tratamento.

Os obstáculos, no entanto, são concretos. Hugo Bento identifica a dificuldade em sensibilizar lideranças institucionais, que muitas vezes tratam a sorofobia como um “problema menor”. Já André Ferreira alerta para o impacto dos cortes de financiamento na saúde pública, que limitam o acesso da população ao cuidado psicológico. Ele ressalta que “a maior parte da população só tem acesso aos serviços psicológicos por meio de serviços públicos ou filantrópicos”, tornando o financiamento uma questão central para a qualidade do trabalho.

A epidemia também escancara desigualdades históricas. André Ferreira chama a atenção para o “diagnóstico tardio” que atinge populações como mulheres negras, periféricas e mais velhas. Sobre as mulheres trans, ele é enfático: “Mulheres trans ainda são muito excluídas do mercado de trabalho e do convívio familiar”, o que as coloca em situação de maior vulnerabilidade. O acolhimento psicológico, nesses casos, é uma ferramenta poderosa não só para o indivíduo, mas para orientar as próprias instituições de saúde.

Para transformar discussão em ação, Hugo Bento sugere um caminho: “pautar as questões relacionadas ao HIV/AIDS nas diferentes comissões e ações do CRP-MG”. Já André Ferreira finaliza com uma mensagem ética e urgente para a categoria. “Não é demais reforçar que cada pessoa que encontramos em nosso trabalho tem desejos, amores, sonhos e é um ser humano com uma trajetória única. A todos devemos respeito absoluto e acolhimento livre de julgamentos”.

Neste 1º de Dezembro, fica o reforço de que a resposta à AIDS depende não apenas de avanços médicos, mas de um profundo trabalho de desconstrução de preconceitos. A Psicologia, com seu compromisso social e sua escuta acolhedora, se revela uma peça indispensável na construção de laços solidários e na garantia de uma vida com dignidade para todos.



– CRP PELO INTERIOR –