Revista do CRP

COMUNICAÇÃO
REVISTA DO CRP MINAS GERAIS

Por meio da Revista CRP Minas Gerais, o Conselho pretende oferecer à categoria de psicólogas(os) mais um canal de informação e reflexão sobre as pautas importantes e urgentes da profissão.

 

Com periodicidade semestral, a publicação apresenta e comprova a pluralidade da Psicologia utilizando as diversas formas de expor conteúdos: reportagens que demonstrem a prática das(os) psicólogas(os), colunas orientativas, artigos que aprofundem o conhecimento ancorado no fazer psi e entrevistas que desenvolvam uma narrativa sobre a atuação e seus desafios.

 

Além da versão impressa, o CRP-MG coloca aqui a versão online e conteúdos extras, completando as informações e aprofundando ainda mais o olhar sobre os assuntos de interesse da Psicologia.

Revista do CRP - Edição Nº 02

Capa: Rompimento de barragens convoca atuação da Psicologia

Entrevista completa com Lilian Garate

 

A psicóloga e coordenadora da Comissão de Psicologia de Emergências e Desastres do CRP-MG no XV Plenário, Lilian Garate, é uma das fontes que ouvimos para a produção da reportagem de capa da segunda edição da Revista do CRP Minas Gerais. Nesta seção, você tem acesso a entrevista completa.

Como foi a atuação da Comissão Psicologia de Emergências e Desastres do CRP-MG junto ao IML, quando ocorreu o rompimento da barragem em Brumadinho?

A Secretaria de Estado de Saúde acionou diferentes instituições para reforçar a equipe do Instituto com médicos, enfermeiros e psicólogos. Nesse contexto, fizeram contato comigo pela experiência no tema e atuação na Comissão de Psicologia de Emergências e Desastres do CRP-MG. O rompimento foi na sexta à tarde e no sábado de manhã já estávamos lá, de plantão. A partir daí, acionamos em nossas redes pessoas que teriam como lidar com essa experiência. A previsão era que a atuação acontecesse até segunda ou terça-feira, mas a Polícia Civil solicitou nosso reforço para a equipe da coleta de DNA. Até aquele momento, fazíamos o primeiro acolhimento das famílias, para ajudar no fluxo de informação e acolher a dor que era enorme naquele momento.

As pessoas chegavam ao IML espontaneamente ou a partir de uma convocação?

Chegavam espontaneamente e era um fluxo enorme de pessoas que queriam informações, ver as listas e ainda não tinha uma unificação de informações. Então o que acontecia no IML no fim de semana era uma coleta de dados: foi solicitado que as pessoas fossem à polícia para preencher uma ficha sobre desaparecidos, com dados da pessoa, da família e informações de identificação, como tatuagem, marcas de cirurgia, elementos que pudessem diferenciar no caso de ser encontrado um corpo. Os corpos começaram a chegar durante fim de semana, mas pouquíssimos foram identificados naquele momento. Então, as pessoas tinham dificuldade de sair dali porque queriam uma informação concreta. Existia uma fantasia do que é o reconhecimento do corpo, então as pessoas imaginavam que era ir lá, levantar o lençol, pediam para entrar, para deixar ver, para eles identificarem mais rápido. Assim, parte do nosso papel também era orientar, explicar como funciona o processo, porque, na verdade, na identificação do corpo, o último recurso é o visual. Tenta-se primeiro o datiloscópico, depois a antropologia forense, depois DNA, e na maioria das vezes se a pessoa quiser ver o corpo, ela só é chamada na hora da liberação. Nosso papel também foi de ajudá-los a entender o dano que provocaria ficar levantando lençol, porque de repente não era a pessoa que esperava, mas era um conhecido. E as pessoas têm muita dificuldade de identificar objetivamente devido à comoção. Além disso, os corpos estavam desfigurados.

À época do rompimento, as notícias relatavam que o rejeito dilacera o corpo…

A comparação que se fazia era com um liquidificador e, de fato, foram encontrados segmentos corpóreos muito pequenos, como músculos. Era uma identificação realmente difícil e nós tínhamos a função tanto de acolhimento, quanto de reforçar a orientação a quem chegava. Garantimos às famílias que elas seriam as primeiras a serem contatadas, não sairiam listas ou comunicados à imprensa antes desse contato, portanto, não havia necessidade de permanecerem ali ou de ficarem indo e voltando. Com isso, o fluxo de pessoas começou a aliviar e nós passamos a reforçar a coleta de DNA. A equipe foi organizada da seguinte forma: profissionais de Medicina e Enfermagem ficavam responsáveis pela coleta direta e a Psicologia ficava com o preenchimento de fichas porque nessa etapa também havia comoção e era um momento de orientação. Alguns profissionais de Psicologia também foram escalados para ficar na porta do IML, para acolher as famílias que estavam recebendo a notícia da identificação dos corpos.

O estado em que os corpos eram e ainda são encontrados é um fator que aumenta muito o impacto do que ocorreu?

É muito mais doloroso porque há uma violência muito grande contra esse corpo. E isso pode despertar uma série de fantasias: desde a identificação correta – e se trocaram o corpo que está ali? – à questão de imaginar em que estado está, no quanto se sofreu, o que foi encontrado, onde foi parar o resto do corpo. Isso agrava a dor.

Como fazer o luto de corpos que não são encontrados?

O luto no caso de desaparecimentos é um dos mais complicados. Não fecha 100% porque sempre paira a possibilidade, inclusive muito alimentada pela ficção, de que o desaparecido possa voltar. Trabalha-se com o conceito de luto presumido, porque se você não fecha esse luto, não consegue avançar na maioria dos aspectos da vida. Por um mecanismo de sobrevivência interna, as famílias vão dizer até que ponto vão com essa angústia. Existem recursos legais relativos à morte presumida, questões de atestado de óbito, pensão, indenização e existem certos marcos que podem ser adotados no caso da impossibilidade de encontrar o corpo. Ocorrem enterros simbólicos, são construídos memoriais, de forma que se marque uma presença da pessoa, para que ela não seja simplesmente apagada da história, mas que não ocupe a centralidade da vida de quem ficou. É muito importante que isso aconteça no tempo de cada família, não é uma coisa que pode ser imposta. Cada família vai poder dizer que está pronta para transferir esse luto para o simbólico, mesmo sem um corpo, mas que para ela signifique um passo nesse fechamento do processo de luto.

Quais lições a Psicologia aprendeu a partir de Brumadinho?

Em cada desastre se aprende um pouco. Temos aprendido como articular melhor a ajuda, ainda temos muito a avançar, mas conseguimos minimizar certos problemas. Aprendemos a colocar mais atenção à questão do voluntariado. Uma coisa positiva é que o CRP foi mais validado como agente nesta situação. Em Mariana, buscamos esse posicionamento e em Brumadinho vimos profissionais buscando ter a referência do Conselho. Existem agentes para outros tipos de voluntariado e temos construído parcerias com outros organismos que trabalham com voluntários, de forma a poder preparar essas pessoas do ponto de vista emocional, tanto para que eles possam dar uma resposta adequada, que não cause dado, como também para que possam se proteger emocionalmente diante da dor a que estão expostos. Procuramos estabelecer uma comunicação mais rápida e demos muita atenção também à questão das redes sociais, das fake news, porque a circulação de informação é muito complicada.

E no caso de Mariana, como você avalia o aprendizado proporcionado do ponto de vista da Psicologia?

Mariana foi realmente um marco. A categoria não estava preparada para algo dessa magnitude, só havíamos lidado com emergências bastante pontuais, como o desabamento dos edifícios do Buritis, a queda do viaduto em 2014. Não são coisas menores, porque cada um que vive sabe o quanto afeta, mas não tinham uma magnitude tão grande. Em Mariana surgiu a necessidade de entender os fluxos corretos, atribuições, instituições que deveriam ser acionadas, como as diferentes redes entram em diálogo. Outro aspecto que surgiu foi a importância de cuidar do protagonismo dos afetados, como profissionais da escuta, precisávamos trazer essa voz para que a dor emocional e os direitos dos afetados fossem considerados. Também procuramos abarcar os diferentes pontos da rede: trabalhamos em Governador Valadares e com o Conselho Regional de Psicologia do Espírito Santo.

Qual é o papel do Sistema Conselhos de Psicologia em contextos de emergências e desastres?

O conselho profissional é um ponto de referência para a categoria. Um ponto de encontro, um norte. E que, dentro disso, apontamos caminhos validos, caminhos que não são válidos, então o papel do CRP é realmente nortear a atuação profissional. Ajudar a entender os fluxos, ajudar a articular as redes, fornecer suporte técnico, subsídios, o que abarca a orientação. Acrescentada à função fiscalizadora.

Profissionais da Psicologia estão preparados para lidar com os contextos de emergências e desastres?

Não temos cursos de formação específica nessa área no Brasil. Eu fiz a pós-graduação no Chile e tenho trazido algumas questões, mas é algo que ainda está chegando. Na graduação, por exemplo, ocorre em forma de disciplinas optativas. Quem tem trabalhado na área tem outras formações, mas não dentro da Psicologia especificamente. Temos esse desafio que não é da alçada do Conselho, porque não é uma instância formativa, mas que precisa ser travado exatamente para que haja uma preparação. Eu ainda sonho em ver os primeiros auxílios psicológicos como algo de domínio comum, que todo mundo deveria saber e não sabe. São conhecimentos sobre como você pode estabilizar uma pessoa, tanto do ponto de vista físico, como do ponto de vista emocional. Não é curar, mas estabilizar. Os protocolos internacionais pregam que esses auxílios não sejam exclusivos de psicólogos, mas de pessoas treinadas no assunto, então o treinamento é que é feito por psicólogos. Daqui para frente espero que os profissionais conheçam o campo, os principais desafios e sejam capazes de fazer o básico, que são os primeiros auxílios psicológicos e conhecer um pouco a rede, a dinâmica. Com isso, garantimos um passo super importante na saúde emocional frente aos desastres.

Como deve ser realizado o cuidado com a saúde mental de trabalhadores que atuam em emergências e desastres?

Essa questão tem nuances. Dentro das equipes de bombeiros, polícias civil, militar, SAMU há uma cultura de preparação muito forte. Especialmente no caso de bombeiros há uma cultura de preparo psicológico, um acompanhamento contínuo. É muito curioso que em Brumadinho houve uma quantidade enorme de voluntários querendo atender os bombeiros e nós tentamos explicar que eles já têm esse preparo junto à corporação e que, inclusive, há uma resistência muito grande deles de procurar ajuda fora da corporação. E isso não é uma coisa só daqui, é da instituição de bombeiros pelo mundo. Tive a oportunidade de dar um curso para bombeiros no Equador e eles falavam que preferiam tratar tudo dentro da corporação porque trazer para o mundo de fora iria gerar muita incompreensão. A partir de cada desastre identificamos núcleos que precisam de um pouco mais de atenção. Houve muitos relatos de voluntários que tinham ido à Mariana, mas decidiram não ir à Brumadinho exatamente porque tinham consciência das sequelas emocionais que viveram, alguns tiveram que voltar para a terapia, enfrentaram períodos de angústia, dor, insônia. Se viram afetados de uma forma mais direta e por isso decidiram se poupar. Boa parte do cuidado psicológico tem que vir mais da preparação do que do suporte posterior. O suporte posterior sempre é necessário, mas é importante que as pessoas saibam que para tirar alguém do buraco, você não pula no buraco, você segura do lado de fora e estende a mão. Porque se você não tiver o seu suporte de fora, você não vai conseguir. Então você tem que ter o cuidado para não virar a segunda vítima.

A questão do voluntariado é um tema importante no contexto de emergências e desastres?

No mundo das emergências e desastres falamos que os desastres são sempre três: o primeiro é o desastre em si, o evento, o rompimento de barragem, o furacão, o terremoto, seja lá o que for. O segundo desastre é a onda de gente que chega para assistir, tanto do ponto de vista da assistência, como também assistir como espectador. Então são pessoas que chegam naquela comunidade e, de certa forma, invadem. E são pessoas que precisam comer, dormir, beber água, e agora tem que carregar o celular, que virou necessidade básica. Essas pessoas precisam saber onde vão, precisam de uma orientação e tudo consome os recursos da comunidade que já estão comprometidos. E o terceiro desastre é quando todo esse grupo vai embora, em geral ao mesmo tempo, quando acaba aquela comoção inicial, os voluntários já acabaram seus prazos, ou já se desgastaram muito e não há tanta demanda, some todo mundo e ocorre um vazio na cidade, que gera uma sensação de abandono muito grande.

Com essa dinâmica, as pessoas afetadas pelos desastres se sentem esquecidas?

Esse é um dos grandes pontos que mostram porque é tão importante o trabalho ser feito pela rede local. Porque a rede local é a que fica, que vai ser a referência. Então por mais que exista um grupo grande para acolher inicialmente, fazer os primeiros auxílios psicológicos, tem que fazer essa vinculação com a rede, porque ela que vai encontrar as pessoas quando o restante for embora. Então é fundamental fortalecer essa rede e já alinhavar com ela o trabalho da próxima etapa, quando a comoção começa a baixar e se inicia a recuperação e a reconstrução daquela comunidade, isso tem que ser a partir dessa rede. Se não houver esse trabalho de costura antes, a rede não vai ser validada frente à população.

A midiatização interfere nos impactos produzidos por situações de emergências e desastres?

É um fenômeno que tem se desdobrado em função dos novos mecanismos de comunicação. Em 2001, nos ataques às torres gêmeas, os índices de estresse pós-traumático dobraram na costa oeste do Estados Unidos, ou seja, do outro lado do país. As pessoas ficavam expostas às notícias muito tempo e se viram afetadas. Isso gerou uma nova categorização dentro das emergências e desastres, que são as pessoas que ficaram sabendo do desastre. Então é uma discussão antiga se agora a gente tem mais desastres ou se a gente está sabendo mais de desastres. Está difícil delimitar essa linha. Mas o fato é que a exposição aumentou muito. E você tem vários aspectos que atravessam isso, um é a questão financeira, a notícia que gera venda. Há uma questão que é super contraditória, mas que é muito presente, que é o glamour do desastre: pessoas que sentem que estão fazendo alguma coisa, então tem um quesito do herói por trás, então precisa mostrar que esteve ali, que fez algo, que fez parte. Outro ponto é a necessidade de melhorar muito a relação com a imprensa, porque ela ainda foca muito na catarse emocional, na exploração dos sentimentos. Nós conseguimos trabalhar um pouco isso no IML, com as famílias: falamos sobre a importância de se protegerem das entrevistas e se optassem por conceder entrevistas, que não eram obrigados a responder tudo, que deveriam pensar se era algo que queriam mesmo, que falassem porque sentiam necessidade, mas não por uma pressão da imprensa.

É papel do poder público rastrear os danos emocionais, fazer uma busca de pessoas que possam estar precisando de atendimento?

É um mecanismo interessante para se dar a conhecer e disponibilizar o serviço. Devemos ter cuidado: nem todos que passaram por um evento traumático vão ficar traumatizados ou vão ter alguma sequela emocional. Às vezes as pessoas têm recursos próprios ou a rede particular de atendimento continua disponível. No caso da saúde pública, é interessante que se faça um monitoramento e as ações podem passar por vários sentidos: pela via de orientação ou psicoeducação dos aspectos emocionais vivenciados no desastre, em que se explica para a população que pode haver algumas reações. Essa sensibilização ajuda as pessoas a entenderem até que ponto vão com recursos próprios ou onde procurar ajuda. A busca ativa não precisa ser no sentido de avaliar a demanda, mas no sentido de monitoramento e disponibilização do serviço. Fazer com que o trabalho possa ser mais coletivo e comunitário também pode atrair pessoas que num primeiro momento não tenham essa demanda ou foram tentando dar conta sozinhas. É oferecer na comunidade algo que ela possa ir se aproximando aos poucos e que seja mais continuado. Se num primeiro momento a pessoa deu conta, talvez depois de três ou quatro meses ela vai precisar de ajuda, não necessariamente a questão surge de forma imediata. Por isso, é importante saber onde procurar ajuda.

 

 

 

Acesse aqui a cobertura fotográfica das entrevistas
na cidade de Mariana (MG)

 

 

Acesse aqui a cobertura fotográfica das entrevistas
na região de Macacos (MG)

 

Acesse aqui a biblioteca de conteúdos produzidos e/ou indicados pelo CRP-MG sobre Psicologia nas Emergências e Desastres

 

 

 

Transmissão da roda de conversa “A atuação de psicólogas(os) na gestão integral de riscos, emergências e desastres”, realizada pelo CRP-MG, por meio do Crepop

Especial: As entrelinhas do racismo

Entrevista completa com Thalita Rodrigues 

 

 

 

 

Folders produzidos pela Comissão de Psicologia e Relações Étnico-Raciais

 

Comissão de Psicologia e Relações Étnico-Raciais

Genocídio da Juventude Negra

Ações afirmativas

Branquitude

 

 

 

Conceitos para entender o debate racial

 

 

Coluna Orientação: Psicologia e as Tecnologias da Comunicação e Informação: uma junção possível

Confira as Legislações citadas no texto

 

Resolução CFP nº 11/2018

Código de Ética Profissional do Psicólogo

Resoluções CFP nº 01/2009

Resoluções CFP nº 05/2010

 

 

Clique aqui e cadastre-se no e-Psi 

 

 

 

Diálogo Digital CFP “Novidades sobre o Atendimento On-line”

Coluna Orientação: Registrar é preciso
Coluna Ética: Meios de solução consensual de conflitos
Revista do CRP - Edição Nº 01

Capa: Transtorno do Espectro do Autismo desperta múltiplas abordagens da Psicologia

Pintura no muro do CAPSi de Varginha

 

O sábado, 9 de fevereiro de 2019, foi agitado no Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) de Varginha, no sul de Minas Gerais. As atenções estavam todas voltadas para a pintura do muro da instituição. Um trabalho coletivo e artístico que contou com a parceria da Associação Eu Escolhi Amar.

 

Crianças e adolescentes atendidos no CAPSi escolheram pintar no muro a figura de Stan Lee, criador de inúmeros super-heróis da Marvel, como Homem-Aranha, X-Men e Pantera Negra.

 

A ação contou com a colaboração do muralista e fundador da Associação Eu Escolhi Amar, Kaká Chazz. A associação também contribuiu com brinquedos e voluntários que interagiram com crianças e adolescentes na manhã de brincadeiras, desenhos e pintura. Veja o registro que a Associação realizou da ação.

 

A coordenação municipal de Saúde Mental de Varginha também apoiou a iniciativa, fornecendo as tintas utilizadas na pintura do mural.

 

Confira depoimentos registrados durante a atividade:

 


com Nádia Xavier

 


com Fernanda Porchat

 


com Kaká Chazz – Parte 1

 


com Kaká Chazz – Parte 2

 

Confira os conteúdos indicados pelas fontes que entrevistamos para a reportagem de capa da Revista do CRP-MG:


Sugestões da professora do Departamento de Psicologia e
coordenadora do curso de especialização em Transtorno do Espectro do Autismo na UFMG, Maria Luísa Nogueira:


Programa de Atenção Interdisciplinar ao Autismo (PRAIA) da UFMG:
Instagram: praia.ufmg
Reportagens da TV UFMG sobre o PRAIA:
https://www.youtube.com/watch?v=v5Mb2WGnoZc

https://www.youtube.com/watch?v=-LNq9cP-gII


Curso de especialização em Transtorno do Espectro do Autismo na UFMG:
Site: https://tea-ufmg.wixsite.com/tea-ufmg/
Contato: especializacao.tea.ufmg@gmail.com


Referências bibliográficas:

BORGES, A, NOGUEIRA, M. O aluno com autismo na escola. São Paulo: Mercado de Letras, 2018.
DONVAN, J, ZUCKER, C. Outra sintonia: a história do autismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
GRANDIN, Temple, PANEK, Richard. O cérebro autista: pensando através do espectro. Rio de Janeiro: Ed Record, 2015.
GRINKER, Roy Richard. Autismo: um mundo obscuro e conturbado. São Paulo: Larrousse do Brasil, 2010.
ROGERS, Sally; DAWSON, Geraldine. Intervenção precoce em crianças com autismo. Lisboa, Ed. Lidel, 2014.
ROGERS, Sally; DAWSON, Geraldine; VISMARA, Laurie. Autismo – compreender e agir em família. Lisboa, Ed. Lidel, 2015.


Referências b
iográficas:
HIGASHIDA, Naoki. O que me faz pular. Rio de Janeiro: Ed Intrínseca, 2013.
NUNES, Ana. Cartas de Beirute – Reflexões de uma mãe e feminista sobre autismo, identidade e os desafios da inclusão. Curitiba, Ed. CRV, 2015.
VIANNA, Luiz Fernando. Meu menino vadio: histórias de um garoto autista e seu pai estranho. Rio de Janeiro. Ed. Intríseca, 2017.


Reportagem:
LANGE, N.; MCDOUGLE, J. Help for the children with autism. The economist/Scientific American mind. April. Summer, 2016.


Canal do Instituto Farol no Youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=lMrypnl7VKo&t=3s

 

Vídeo do Laboratório de Estudo e Extensão em Autismo e Desenvolvimento da UFMG (LEAD) para o Dia Internacional de Conscientização para o Autismo:
https://www.youtube.com/watch?v=g7up_eWT-HE


Sugestões da psicóloga, doutora em Educação e professora nos cursos de Licenciatura e no Mestrado Profissional “Educação e Docência” da UFMG, Libéria Neves.

Documentários:
“A céu aberto” (À Ciel Ouvert), França/Bélgica, 2013.
“Infância sob controle: medicalização na infância” (L’enfance sous controle), França, 2009.

Referência bibliográfica:
LAIA, Sérgio; ALVARENGA, Elisa. O que é o autismo hoje?”. 2016.


Documentários que registram parte do trabalho realizado pela professora do curso de graduação em Dança da UFMG, Anamaria Fernandes:

“Un pas de côté” – disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_L4L2f2lY7g

“Hors de ma bulle”

Entrevista: Quando o trabalho produz adoecimento

Confira as referências sobre Saúde do Trabalhador sugeridas pela doutora em Psicologia Social e professora da graduação e da pós-graduação no Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Maristela Pereira.

 

Lima, M. E. A.; Assunção, A. A.; Francisco, J. M. S. D (2010). Aprisionado pelos ponteiros do relógio: o caso de um transtorno mental desencadeado no trabalho. In: Jacques, M. G. & Codo, W. (Orgs.). Saúde Mental e Trabalho: Leituras. Petrópolis: Vozes.

 

Pereira, M. S. (2017). Trabalho, vida e adoecimento: as múltiplas faces da violência contra trabalhadores. In: C. A. FERNANDES. (org.). A violência na contemporaneidade, do simbólico ao letal. (pp. 85-111) São Paulo: Intermeios.

 

Seligmann-Silva, E. (2011). Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São Paulo: Cortez.

Entrevista com coordenadoras da Casa Tina Martins

ENTREVISTA: Violência contra a mulher não será resolvida por um grupo, por uma pessoa ou pela própria mulher, mas por uma rede de apoio que precisa ser construída entre elas

Conheça a Casa Tina Martins, primeira ocupação de mulheres na América Latina.

 

No dia 8 de março de 2016 surgiu, em Belo Horizonte, a Casa de Referência da Mulher “Tina Martins”, que atua para acolher e dar abrigo a mulheres vítimas de violências. Com caráter político a Casa busca, além de prestar atendimentos, discutir questões como o patriarcado, o machismo e a hostilidade que ambos causam na sociedade, sendo potenciais geradores de opressões e violências para as mulheres.

 

Entrevistamos as coordenadoras da Casa, Pedrina Gomes, que é assistente social; Isabela Sturzenek, estudante de Psicologia; e a psicóloga, fundadora e coordenadora da equipe de Psicologia “PsicoTinas”, Gabriella Cirilo. Confira:

 

  • Quais são as características das relações violentas vivenciadas pelas mulheres atendidas na Casa?

 

Pedrina Gomes:

É muito difícil falarmos de uma violência só. Quando uma mulher vivencia uma violência física, a psicológica normalmente já estava há muito tempo antes. Falar de apenas uma violência, em específico, é muito difícil.

 

Gabriella Cirilo:

O que acontece muito é que as pessoas não têm consciência da violência sexual, porque acham que é só o estupro que aconteceu com o desconhecido. Necessariamente, perante a questão da igreja, se uma mulher é forçada a ter relações sexuais só depois de casada, contra a vontade dela, isso caracteriza uma violência sexual. Muitas mulheres chegam aqui e descobrem isso e é uma coisa importante para elas lidarem. Ao mesmo tempo tem que ser tratado com muita cautela, porque vai ser mais uma coisa difícil.

 

  • Qual o papel das(os) psicólogas(os) no atendimento dessas essas mulheres? Como é feito esse atendimento?

 

Isabela Sturzenek:

Acho que vem muito da troca entre elas. Às vezes as mulheres abrigadas vêm com uma demanda, por exemplo, com a violência sexual, e elas têm ciência disso. Na conversa que uma mulher tem com a outra, contando como foi a violência sexual, essa outra mulher percebe que já passou por isso também. Então tem essa descoberta ao longo da permanência dela na casa.

Nós temos muito esse cuidado, então não ficamos tentando extrair ou mostrar para ela que ela sofreu aquilo. Ela traz queixa dela e através desse diálogo e acompanhamento nós vamos tentando auxiliar no fortalecimento e na superação.

Se a mulher vem com uma demanda de violência física e ela descobre que ela estava sendo estuprada, isso para ela é uma derrota. O psicológico dela fica abalado e isso é outro trabalho.

 

Gabriella Cirilo:

A Psicologia vai contribuindo nisso, principalmente através da escuta, entendendo a realidade daquela mulher e o que ela pensa em relação a isso. No atendimento psicológico não é nosso saber que entra, é o da mulher.

 

  • Como funcionam os encaminhamentos desses casos?

 

Gabriella Cirilo:

Existe um núcleo de Psicologia que atua de várias formas. Uma delas é o atendimento psicológico individual, que é uma psicoterapia breve para a mulher conseguir entender o que está acontecendo. É um espaço de escuta com sigilo profissional. Pessoas formadas que atendem essas mulheres voluntariamente. Nós também promovemos outros espaços em que há trocas com as universidades. Às vezes a faculdade vem aqui com questões de estágio e acontecem rodas de conversa, a Psicologia vai tentando abranger sempre escutando aquele sujeito, devolvendo para ele para conseguir entender o que está acontecendo. Isso acontece ao longo do processo que a mulher permanece, seja como abrigada, seja como acolhida. A pessoa não necessariamente mora aqui, mas ela vem para ter um atendimento psicológico. A Psicologia fica mais na escuta desse sujeito, porque muitas vezes aquela mulher nunca teve voz. Aqui é onde nós permitimos que ela tenha voz e devolvemos da melhor forma possível.

 

Isabela Sturzenek:

Para os demais profissionais é necessário, primeiro, entender que se trata de mulheres em situação de violência, entender do feminismo e também qual feminismo. Olhar para o contexto social que essa mulher está inserida, ter consciência da questão de raça e classe e não somente de gênero, porque uma mulher não é reduzida só a isso, existem outras demandas por trás. Se o profissional não tem essa compreensão total, não vai, de fato, conseguir impulsionar um melhor encaminhamento.

Nos encaminhamentos jurídicos nós temos as profissionais voluntárias. Equipe de advogadas, psicólogas e a Carolina, que é assistente social. O jurídico, por exemplo, não cuida apenas daquela situação de violência. Às vezes é um divórcio, uma guarda das crianças, um acompanhamento de medida protetiva, pensão. Então, outras demandas nós tentamos encaminhar para Defensoria Pública, para outros núcleos de atendimento de universidade, porque nós não conseguimos para fazer todo o atendimento. Por isso nós batemos muito na tecla de trabalhar em rede.

A violência contra a mulher não vai se resolvida por um grupo, por uma pessoa ou pela própria mulher, é uma questão de rede, uma rede de apoio entre mulheres. Às vezes aquela mulher não está precisando necessariamente do atendimento com a profissional, ela precisa ter uma amiga que possa acolher ela. É depois que nós vamos pensar quais são os órgãos que vão atuar em cima dessas demandas. Precisamos estar sempre em conexão com parceiros para conseguirmos encaminhar as mulheres da melhor forma.

 

Pedrina Gomes:

A mulher sai também do convívio que ela tinha. Muitas vezes as mulheres abrigadas na casa fazem uma medida protetiva, às vezes moram na casa das famílias do companheiro, em que tinham uma família extensa e elas precisam sair dessa moradia. Nós fazemos esse encaminhamento para dentro dessa rede também, para ver questões de moradia, da assistência social, do bolsa família, de algum outro benefício. O que essa mulher tem de direito como cidadã é onde nós podemos buscar esse auxílio. A rede é nosso principal espaço para encaminhamentos.

 

  • Quais os impactos que as experiências de violência geram na subjetividade dessas mulheres?

 

Gabriella Cirilo:

Cada uma lida de uma forma. Aqui nós temos um aparato muito grande que é a questão da violência doméstica e cada uma impacta de uma forma totalmente singular. Algo que permeia todas é que elas têm um sofrimento muito grande.

 

Pedrina Gomes:

Nós estamos falando de violência de gênero, de uma estrutura social. Nós vivemos em uma sociedade extremamente machista e patriarcal, então isso vai atingir as mulheres de todos os espaços. Nós sabemos que, em sua grande maioria, as mulheres negras, periféricas e trabalhadoras são as que tem menores condições de sair das relações violentas por uma questão social, de acesso, e por nós vivermos nessa sociedade em que o machismo e o patriarcado estão em todos os âmbitos.

 

  • Depois do acolhimento, como é o processo de reinserção dessas mulheres na sociedade?

 

Isabela Sturzenek:

O diferencial do trabalho que nós fazemos, por sermos um movimento social, é justamente como vamos discutir a política delas, porque se não elas vão continuar vivendo naquela bolha, com aquele modelo de vida em que ela tinha que viver frustrada. Ela sai da violência, mas continua mal porque não consegue enxergar um futuro, não consegue pensar em uma saída.

 

  • Quais os desafios são colocados para que elas possam romper com essas situações de abuso? E como vocês observam o recomeço da trajetória de vida dessas mulheres após a ruptura dessas situações de violência?

 

Isabela Sturzenek:

A mulher passar por aqui não significa que ela não vai voltar a entrar em outra situação de violência. Ela sai de um caso, mas nós estamos suscetíveis a tudo. Ela sai de um relacionamento, mas a sociedade continua dizendo que ela precisa de um homem para ser feliz. É a romantização da violência.

Nosso trabalho é abrir o olho dessas mulheres e dar outra perspectiva de dizer que está tudo bem se relacionar com um homem, mas que ela não precisa dele para sobreviver. É alertar essa mulher para ela poder dizer não.

É muito forte tudo o que nós, mulheres, vivemos. Nós não estamos lutando para alcançar algo novo. Nós lutamos para manter o que nós já temos. O pouco que nos resta. Estamos tendo mais tentando apagar um incêndio do que, de fato, avançar.

 

Conheça também os perfis da Casa Tina Martins nas redes sociais, apoie e fique por dentro dos projetos desenvolvidos.

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– CRP PELO INTERIOR –