Revista CRP Minas Gerais

COMUNICAÇÃO
REVISTA DO CRP MINAS GERAIS

Por meio da Revista CRP Minas Gerais, o Conselho pretende oferecer à categoria de psicólogas(os) mais um canal de informação e reflexão sobre as pautas importantes e urgentes da profissão.

 

Com periodicidade semestral, a publicação apresenta e comprova a pluralidade da Psicologia utilizando as diversas formas de expor conteúdos: reportagens que demonstrem a prática das(os) psicólogas(os), colunas orientativas, artigos que aprofundem o conhecimento ancorado no fazer psi e entrevistas que desenvolvam uma narrativa sobre a atuação e seus desafios.

 

Além da versão impressa, o CRP-MG coloca aqui a versão online e conteúdos extras, completando as informações e aprofundando ainda mais o olhar sobre os assuntos de interesse da Psicologia.

 

 

Edição nº 01

Capa: Transtorno do Espectro do Autismo desperta múltiplas abordagens da Psicologia

Pintura no muro do CAPSi de Varginha

 

O sábado, 9 de fevereiro de 2019, foi agitado no Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) de Varginha, no sul de Minas Gerais. As atenções estavam todas voltadas para a pintura do muro da instituição. Um trabalho coletivo e artístico que contou com a parceria da Associação Eu Escolhi Amar.

 

Crianças e adolescentes atendidos no CAPSi escolheram pintar no muro a figura de Stan Lee, criador de inúmeros super-heróis da Marvel, como Homem-Aranha, X-Men e Pantera Negra.

 

A ação contou com a colaboração do muralista e fundador da Associação Eu Escolhi Amar, Kaká Chazz. A associação também contribuiu com brinquedos e voluntários que interagiram com crianças e adolescentes na manhã de brincadeiras, desenhos e pintura. Veja o registro que a Associação realizou da ação.

 

A coordenação municipal de Saúde Mental de Varginha também apoiou a iniciativa, fornecendo as tintas utilizadas na pintura do mural.

 

Confira depoimentos registrados durante a atividade:


com Nádia Xavier

 

 

 


com Fernanda Porchat

 

 

 


com Kaká Chazz – Parte 1

 

 


com Kaká Chazz – Parte 2

 

 

Confira os conteúdos indicados pelas fontes que entrevistamos para a reportagem de capa da Revista do CRP-MG:


Sugestões da professora do Departamento de Psicologia e
coordenadora do curso de especialização em Transtorno do Espectro do Autismo na UFMG, Maria Luísa Nogueira:


Programa de Atenção Interdisciplinar ao Autismo (PRAIA) da UFMG:
Instagram: praia.ufmg
Reportagens da TV UFMG sobre o PRAIA:
https://www.youtube.com/watch?v=v5Mb2WGnoZc

https://www.youtube.com/watch?v=-LNq9cP-gII


Curso de especialização em Transtorno do Espectro do Autismo na UFMG:
Site: https://tea-ufmg.wixsite.com/tea-ufmg/
Contato: especializacao.tea.ufmg@gmail.com


Referências bibliográficas:

BORGES, A, NOGUEIRA, M. O aluno com autismo na escola. São Paulo: Mercado de Letras, 2018.
DONVAN, J, ZUCKER, C. Outra sintonia: a história do autismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
GRANDIN, Temple, PANEK, Richard. O cérebro autista: pensando através do espectro. Rio de Janeiro: Ed Record, 2015.
GRINKER, Roy Richard. Autismo: um mundo obscuro e conturbado. São Paulo: Larrousse do Brasil, 2010.
ROGERS, Sally; DAWSON, Geraldine. Intervenção precoce em crianças com autismo. Lisboa, Ed. Lidel, 2014.
ROGERS, Sally; DAWSON, Geraldine; VISMARA, Laurie. Autismo – compreender e agir em família. Lisboa, Ed. Lidel, 2015.


Referências b
iográficas:
HIGASHIDA, Naoki. O que me faz pular. Rio de Janeiro: Ed Intrínseca, 2013.
NUNES, Ana. Cartas de Beirute – Reflexões de uma mãe e feminista sobre autismo, identidade e os desafios da inclusão. Curitiba, Ed. CRV, 2015.
VIANNA, Luiz Fernando. Meu menino vadio: histórias de um garoto autista e seu pai estranho. Rio de Janeiro. Ed. Intríseca, 2017.


Reportagem:
LANGE, N.; MCDOUGLE, J. Help for the children with autism. The economist/Scientific American mind. April. Summer, 2016.


Canal do Instituto Farol no Youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=lMrypnl7VKo&t=3s

 

Vídeo do Laboratório de Estudo e Extensão em Autismo e Desenvolvimento da UFMG (LEAD) para o Dia Internacional de Conscientização para o Autismo:
https://www.youtube.com/watch?v=g7up_eWT-HE


Sugestões da psicóloga, doutora em Educação e professora nos cursos de Licenciatura e no Mestrado Profissional “Educação e Docência” da UFMG, Libéria Neves.

Documentários:
“A céu aberto” (À Ciel Ouvert), França/Bélgica, 2013.
“Infância sob controle: medicalização na infância” (L’enfance sous controle), França, 2009.

Referência bibliográfica:
LAIA, Sérgio; ALVARENGA, Elisa. O que é o autismo hoje?”. 2016.


Documentários que registram parte do trabalho realizado pela professora do curso de graduação em Dança da UFMG, Anamaria Fernandes:

“Un pas de côté” – disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_L4L2f2lY7g

“Hors de ma bulle”

Entrevista: Quando o trabalho produz adoecimento

Confira as referências sobre Saúde do Trabalhador sugeridas pela doutora em Psicologia Social e professora da graduação e da pós-graduação no Instituto de Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Maristela Pereira.

 

Lima, M. E. A.; Assunção, A. A.; Francisco, J. M. S. D (2010). Aprisionado pelos ponteiros do relógio: o caso de um transtorno mental desencadeado no trabalho. In: Jacques, M. G. & Codo, W. (Orgs.). Saúde Mental e Trabalho: Leituras. Petrópolis: Vozes.

 

Pereira, M. S. (2017). Trabalho, vida e adoecimento: as múltiplas faces da violência contra trabalhadores. In: C. A. FERNANDES. (org.). A violência na contemporaneidade, do simbólico ao letal. (pp. 85-111) São Paulo: Intermeios.

 

Seligmann-Silva, E. (2011). Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mesmo. São Paulo: Cortez.

Entrevista com coordenadoras da Casa Tina Martins

ENTREVISTA: Violência contra a mulher não será resolvida por um grupo, por uma pessoa ou pela própria mulher, mas por uma rede de apoio que precisa ser construída entre elas

 

Conheça a Casa Tina Martins, primeira ocupação de mulheres na América Latina

 

No dia 8 de março de 2016 surgiu, em Belo Horizonte, a Casa de Referência da Mulher “Tina Martins”, que atua para acolher e dar abrigo a mulheres vítimas de violências. Com caráter político a Casa busca, além de prestar atendimentos, discutir questões como o patriarcado, o machismo e a hostilidade que ambos causam na sociedade, sendo potenciais geradores de opressões e violências para as mulheres.

 

Entrevistamos as coordenadoras da Casa, Pedrina Gomes, que é assistente social; Isabela Sturzenek, estudante de Psicologia; e a psicóloga, fundadora e coordenadora da equipe de Psicologia “PsicoTinas”, Gabriella Cirilo. Confira:

 

  • Quais são as características das relações violentas vivenciadas pelas mulheres atendidas na Casa?

 

Pedrina Gomes:

É muito difícil falarmos de uma violência só. Quando uma mulher vivencia uma violência física, a psicológica normalmente já estava há muito tempo antes. Falar de apenas uma violência, em específico, é muito difícil.

 

Gabriella Cirilo:

O que acontece muito é que as pessoas não têm consciência da violência sexual, porque acham que é só o estupro que aconteceu com o desconhecido. Necessariamente, perante a questão da igreja, se uma mulher é forçada a ter relações sexuais só depois de casada, contra a vontade dela, isso caracteriza uma violência sexual. Muitas mulheres chegam aqui e descobrem isso e é uma coisa importante para elas lidarem. Ao mesmo tempo tem que ser tratado com muita cautela, porque vai ser mais uma coisa difícil.

 

  • Qual o papel das(os) psicólogas(os) no atendimento dessas essas mulheres? Como é feito esse atendimento?

 

Isabela Sturzenek:

Acho que vem muito da troca entre elas. Às vezes as mulheres abrigadas vêm com uma demanda, por exemplo, com a violência sexual, e elas têm ciência disso. Na conversa que uma mulher tem com a outra, contando como foi a violência sexual, essa outra mulher percebe que já passou por isso também. Então tem essa descoberta ao longo da permanência dela na casa.

Nós temos muito esse cuidado, então não ficamos tentando extrair ou mostrar para ela que ela sofreu aquilo. Ela traz queixa dela e através desse diálogo e acompanhamento nós vamos tentando auxiliar no fortalecimento e na superação.

Se a mulher vem com uma demanda de violência física e ela descobre que ela estava sendo estuprada, isso para ela é uma derrota. O psicológico dela fica abalado e isso é outro trabalho.

 

Gabriella Cirilo:

A Psicologia vai contribuindo nisso, principalmente através da escuta, entendendo a realidade daquela mulher e o que ela pensa em relação a isso. No atendimento psicológico não é nosso saber que entra, é o da mulher.

 

  • Como funcionam os encaminhamentos desses casos?

 

Gabriella Cirilo:

Existe um núcleo de Psicologia que atua de várias formas. Uma delas é o atendimento psicológico individual, que é uma psicoterapia breve para a mulher conseguir entender o que está acontecendo. É um espaço de escuta com sigilo profissional. Pessoas formadas que atendem essas mulheres voluntariamente. Nós também promovemos outros espaços em que há trocas com as universidades. Às vezes a faculdade vem aqui com questões de estágio e acontecem rodas de conversa, a Psicologia vai tentando abranger sempre escutando aquele sujeito, devolvendo para ele para conseguir entender o que está acontecendo. Isso acontece ao longo do processo que a mulher permanece, seja como abrigada, seja como acolhida. A pessoa não necessariamente mora aqui, mas ela vem para ter um atendimento psicológico. A Psicologia fica mais na escuta desse sujeito, porque muitas vezes aquela mulher nunca teve voz. Aqui é onde nós permitimos que ela tenha voz e devolvemos da melhor forma possível.

 

Isabela Sturzenek:

Para os demais profissionais é necessário, primeiro, entender que se trata de mulheres em situação de violência, entender do feminismo e também qual feminismo. Olhar para o contexto social que essa mulher está inserida, ter consciência da questão de raça e classe e não somente de gênero, porque uma mulher não é reduzida só a isso, existem outras demandas por trás. Se o profissional não tem essa compreensão total, não vai, de fato, conseguir impulsionar um melhor encaminhamento.

Nos encaminhamentos jurídicos nós temos as profissionais voluntárias. Equipe de advogadas, psicólogas e a Carolina, que é assistente social. O jurídico, por exemplo, não cuida apenas daquela situação de violência. Às vezes é um divórcio, uma guarda das crianças, um acompanhamento de medida protetiva, pensão. Então, outras demandas nós tentamos encaminhar para Defensoria Pública, para outros núcleos de atendimento de universidade, porque nós não conseguimos para fazer todo o atendimento. Por isso nós batemos muito na tecla de trabalhar em rede.

A violência contra a mulher não vai se resolvida por um grupo, por uma pessoa ou pela própria mulher, é uma questão de rede, uma rede de apoio entre mulheres. Às vezes aquela mulher não está precisando necessariamente do atendimento com a profissional, ela precisa ter uma amiga que possa acolher ela. É depois que nós vamos pensar quais são os órgãos que vão atuar em cima dessas demandas. Precisamos estar sempre em conexão com parceiros para conseguirmos encaminhar as mulheres da melhor forma.

 

Pedrina Gomes:

A mulher sai também do convívio que ela tinha. Muitas vezes as mulheres abrigadas na casa fazem uma medida protetiva, às vezes moram na casa das famílias do companheiro, em que tinham uma família extensa e elas precisam sair dessa moradia. Nós fazemos esse encaminhamento para dentro dessa rede também, para ver questões de moradia, da assistência social, do bolsa família, de algum outro benefício. O que essa mulher tem de direito como cidadã é onde nós podemos buscar esse auxílio. A rede é nosso principal espaço para encaminhamentos.

 

  • Quais os impactos que as experiências de violência geram na subjetividade dessas mulheres?

 

Gabriella Cirilo:

Cada uma lida de uma forma. Aqui nós temos um aparato muito grande que é a questão da violência doméstica e cada uma impacta de uma forma totalmente singular. Algo que permeia todas é que elas têm um sofrimento muito grande.

 

Pedrina Gomes:

Nós estamos falando de violência de gênero, de uma estrutura social. Nós vivemos em uma sociedade extremamente machista e patriarcal, então isso vai atingir as mulheres de todos os espaços. Nós sabemos que, em sua grande maioria, as mulheres negras, periféricas e trabalhadoras são as que tem menores condições de sair das relações violentas por uma questão social, de acesso, e por nós vivermos nessa sociedade em que o machismo e o patriarcado estão em todos os âmbitos.

 

  • Depois do acolhimento, como é o processo de reinserção dessas mulheres na sociedade?

 

Isabela Sturzenek:

O diferencial do trabalho que nós fazemos, por sermos um movimento social, é justamente como vamos discutir a política delas, porque se não elas vão continuar vivendo naquela bolha, com aquele modelo de vida em que ela tinha que viver frustrada. Ela sai da violência, mas continua mal porque não consegue enxergar um futuro, não consegue pensar em uma saída.

 

  • Quais os desafios são colocados para que elas possam romper com essas situações de abuso? E como vocês observam o recomeço da trajetória de vida dessas mulheres após a ruptura dessas situações de violência?

 

Isabela Sturzenek:

A mulher passar por aqui não significa que ela não vai voltar a entrar em outra situação de violência. Ela sai de um caso, mas nós estamos suscetíveis a tudo. Ela sai de um relacionamento, mas a sociedade continua dizendo que ela precisa de um homem para ser feliz. É a romantização da violência.

Nosso trabalho é abrir o olho dessas mulheres e dar outra perspectiva de dizer que está tudo bem se relacionar com um homem, mas que ela não precisa dele para sobreviver. É alertar essa mulher para ela poder dizer não.

É muito forte tudo o que nós, mulheres, vivemos. Nós não estamos lutando para alcançar algo novo. Nós lutamos para manter o que nós já temos. O pouco que nos resta. Estamos tendo mais tentando apagar um incêndio do que, de fato, avançar.

 

Conheça também os perfis da Casa Tina Martins nas redes sociais, apoie e fique por dentro dos projetos desenvolvidos.

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