Campanha contra o assédio às mulheres marcou o carnaval em Belo Horizonte

Campanha contra o assédio às mulheres marcou o carnaval em Belo Horizonte

“Tira a mão: é hora de dar um basta” foi o mote da campanha organizada pelo grupo “As Minas do Carnaval de Belô” para combater o assédio durante a festa. A mobilização ganhou destaque nas redes sociais e durante os desfiles dos blocos.

No entanto, muitas vulnerabilidades se fizeram presentes no carnaval. Além de situações de assédio e violência contra a mulher, também houve o impedimento do desfile do “Bloco Arrasta Bloco de Favela” na quarta-feira, 1/3.

A conselheira e integrante da Comissão Mulheres e Questões de Gênero, Flávia Gotelip, faz uma análise desse contexto na entrevista a seguir.

As Minas do Carnaval de Belô lideraram a campanha de combate ao assédio no carnaval. Vários blocos leram o manifesto, pararam os desfiles quando alguma situação foi constatada. Depois do carnaval, a página das Minas no Facebook também começou a receber relatos de mulheres que passaram por situações de violência. Como você avalia iniciativas como essa?
É muito interessante ver o grupo das Minas do Carnaval de Belô, e de vários outros blocos, associarem esse marco à história do carnaval, criando um carnaval para todas e para todos. Devemos pensar o enfrentamento da violência contra a mulher sempre a partir do tripé: prevenção, atenção à mulher violada e repressão aos autores da violência. E não tem como pensarmos na prevenção sem a participação da sociedade civil, especialmente em campanhas, em ações de convocação.

Esse ato também vem consolidar o espaço que as mulheres belo-horizontinas conquistaram e ocupam na própria organização e gestão do carnaval, são mulheres protagonizando o carnaval e isso diz de um protagonismo social de uma forma mais ampla.

Outro aspecto muito importante é trazer para esse espaço de rua um debate que muitas vezes fica silenciado na esfera privada. Mesmo quando acontece na esfera pública, infelizmente, é um debate pouco acessado pela sociedade de forma mais ampla. Às vezes, temos espaços de debate na academia, nos serviços públicos, mas quando isso é levado para um carro de som, para a frente de uma bateria, na identidade visual que um bloco assume, isso tem um alcance inimaginável.

Também foi importante por permitir uma campanha que levou para a rua uma forma de se pensar a relação do carnaval com o corpo da mulher, uma festa que muitas vezes é marcada culturalmente pela exploração do corpo feminino.

Apesar de vários relatos, temos acompanhado apenas um caso em que foi registrada a ocorrência na polícia. Levar a denúncia a cabo e enfrentar o trâmite na polícia ainda é raro. Como podemos entender esse tipo de situação?
As estatísticas revelam que uma mulher é agredida no Brasil a cada 4 minutos. E foi exatamente esse mesmo registro durante o carnaval. Mas ficamos sabendo de apenas uma denúncia registrada especificamente sobre assédio no carnaval, e isso diz muito dessa cultura naturalizada, de uma prática reforçada por homens e vivida pelas mulheres como algo de menor potencial ofensivo ou de menor importância, que não se torna denúncia.

Precisamos de, junto com a campanha de prevenção, trazer os canais de denúncia, com o Disque 180. O debate sobre o assédio não deve acontecer somente durante o carnaval, mas no ano todo, num calendário de grandes eventos em Belo Horizonte, contando também com a participação da Rede de Enfrentamento à Violência contra a Mulher do Estado de Minas Gerais, de órgãos e fóruns tanto da sociedade civil, quanto de instituições públicas.

Precisamos somar esforços e institucionalizar essas pautas, permitindo a criação de canais de acolhimento dessas vítimas, de orientação quanto à forma de denúncia, estratégias de plantão, de atendimento durante o feriado, porque a maioria dos serviços que nós temos de atenção à mulher funciona em horário comercial e estavam fechados no carnaval. Precisamos pensar, por exemplo, em plantão psicológico e outras ações que possam envolver inclusive a própria Psicologia nesse debate. O CRP-MG, por meio da Comissão Mulheres e Questões de Gênero, está atento a isso, propondo um movimento de mobilização da categoria para assumir ações de prevenção, estando junto nas campanhas.

É fundamental desnaturalizar o assédio. Essa prática nos assola cotidianamente e é uma prática violenta. Além do acolhimento, temos que pensar tratativas dessas denúncias, acompanhamento dos casos para que não fique também no lugar da não responsabilização, da não investigação.

Por fim, houve a atuação equivocada da Polícia Militar em relação ao “Bloco Arrasta Bloco de Favela”, impedido de desfilar na quarta-feira, 1/3, no Aglomerado Morro das Pedras, em Belo Horizonte. Essa situação revelou a persistência do racismo e do preconceito com a população moradora de favelas. Como podemos compreender esse tipo de ocorrência?
Trata-se de um caso grave de racismo institucional que precisa ser devidamente tratado e investigado pela Corregedoria e todos os outros órgãos competentes. Foi um ato de racismo e também de violência contra a mulher, localizado na pessoa da nossa companheira tão querida, Vanessa Beco. A quem serve o carnaval? Para quem é pensado? A quais grupos sociais interessa pensar a consolidação do carnaval como um grande ponto de turismo para BH? Nesse contexto, temos que considerar um bloco de periferia que sai da favela, com uma trajetória linda de identidade e de valorização identitária, de valorização de uma cultura de um povo. Por que o bloco da favela a ser violado, perseguido, interditado? Isso é uma conduta que diz de uma prática institucional criminosa, que segrega e violenta um grupo social estigmatizado e violentado desde sempre na história do nosso país e que precisa ser denunciado. O CRP-MG repudia essa forma de racismo e de discriminação institucional vindo de um aparato da segurança pública e que certamente não pode dizer de uma forma de fazer a segurança pública no nosso estado, no nosso país. É fundamental a investigação e a responsabilização daqueles que o fizeram.

 

 



– CRP PELO INTERIOR –