“Defender direitos é defender pessoas em todos os espaços de experiência do ser humano”

Confira entrevista com o conselheiro e coordenador das Comissões de Direitos Humanos e de Psicologia, Laicidade, Espiritualidade, Religião e Outros Saberes Tradicionais do CRP-MG, Reinaldo da Silva Júnior

Neste ano, as Comissões de Direitos Humanos do Sistema Conselhos de Psicologia lançam a campanha “A Psicologia respeita as pessoas enfrentando”, cujo objetivo central é produzir uma interdição dos discursos de ódio que dominaram as relações interpessoais, afetando, inclusive, o processo eleitoral brasileiro. A ação tem como foco proteger a população em situação de rua, negros, lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, usuários de drogas, mulheres, usuárias de serviços de saúde mental, crianças e adolescentes, pessoas privadas de liberdade e aquelas com diferenças funcionais.

O CRP-MG aderiu ainda, enquanto integrante da Rede de Enfrentamento à Violência Contra  Mulher, à campanha “16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra as Mulheres”, que iniciou em 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres e encerra neste 10 de dezembro, data em que se celebra mundialmente a Proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O conselheiro coordenador da Comissão de Direitos Humanos do CRP-MG, Reinaldo da Silva Júnior, explica em entrevista a importância do assunto para a Psicologia.

O que é a campanha dos Direitos Humanos do Sistema Conselhos “A Psicologia respeita as pessoas enfrentando” e por que a Psicologia prioriza esse tema?

A campanha tem como objetivo central produzir uma interdição dos discursos de ódio voltados contra populações historicamente vulnerabilizadas e estimular o respeito e ações humanizadas e humanizadoras. Ela busca unir forças, ações e discursos, seja em qual campo for, na bandeira dos direitos humanos, que deve estar como eixo centralizador de todas as atividades. A Psicologia é uma ciência, uma profissão, que defende as pessoas, que trabalha com as pessoas. E defender direitos é defender pessoas em todos os espaços de experiência do ser humano: trabalho, vida social, escolas, entre outros. Defender os direitos humanos é garantir a dignidade e o respeito nas relações.

Toda(o) profissional da Psicologia pode trabalhar orientada(o) pelos direitos humanos, seja no serviço público ou no consultório particular?

É fundamental pensar que o fazer da Psicologia em si é promoção dos direitos humanos, pois pretende garantir o equilíbrio, uma vida de qualidade. Toda a nossa atuação é alinhada com os direitos humanos. Dentro da clínica, ao atender alguém com sofrimentos, dentro do esporte, fazendo um atleta render mais, dentro da escola, ajudando as pessoas a desenvolver suas funções cognitivas, todos os espaços, o ato de fazer, envolve os direitos humanos. Quando pensamos em ações, por exemplo, dentro do sistema carcerário, onde a experiência de vida é vulnerabilizada na dignidade, na justiça, o nosso papel é fazer com que essas pessoas também possam viver com mais qualidade. Neste sentido também atendemos ao policial, assistimos aquele que está do outro lado nas relações. Tudo tendo como premissa a promoção da qualidade de vida das pessoas. Ser psicóloga(o) é promover a vida.

Essa promoção diz então de cuidar da saúde mental?

Quando definimos que a Psicologia apenas cuida da saúde mental produzimos uma fragmentação do ser humano. Na verdade a Psicologia cuida da saúde. É colocado pela Organização Mundial da Saúde que a(o) psicóloga(o) atua com o bem-estar psíquico, físico e espiritual, trabalhando dentro de todas essas esferas. E neste sentido nossa profissão olha para o ser humano considerando ainda o componente social, pois não é possível cuidar das pessoas sem atentar para como e onde vivem.

E quais são os principais enfrentamentos da Psicologia?

Às mais variadas opressões e violências que estruturam nossa sociedade a começar pela desigualdade social e assim, por sequência, o racismo, a violência de gênero, a LGBTfobia, o preconceito e a discriminação.

Qual é hoje o principal desafio da Psicologia?

Produzir espaços de diálogo. Hoje o que está mais ameaçando a saúde é exatamente a fragmentação e a polarização dos discursos, que não permitem mais às pessoas se encontrarem, dialogarem.