Entrevista: no aniversário de 15 anos do Crepop, saiba mais sobre a importância do Centro para a atuação da Psicologia nas políticas públicas

Conselheiro do CRP-MG, Luiz Felipe Cardoso, avalia o papel do Centro e comenta as pesquisas que estão em curso

As discussões sobre a participação da Psicologia nas políticas públicas existem desde a década de 1970. Ao longo dos anos seguintes, a crescente inserção da categoria nesse campo evidenciou a importância do fazer Psi como um agente social para além dos consultórios particulares. Uma das grandes marcas desse avanço foi a implantação do Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas (Crepop), no dia 27 de agosto de 2006.

Criado pelo Sistema Conselhos de Psicologia, esse novo setor visa organizar e mapear as diversas experiências de psicólogas(os) inseridas(os) nas políticas públicas. 15 anos depois, o Crepop já produziu mais de 20 publicações nacionais, além de consultas amplas, que orientam a categoria nas diferentes áreas, refletindo sobre a atuação e o papel da Psicologia. Mais do que a produção de referências técnicas, o Centro abre novas portas para psicólogas(os) no campo social.

Para falar mais sobre o tema, convidamos o conselheiro referência do Crepop no Conselho Regional de Psicologia – Minas Gerais (CRP-MG), Luiz Felipe Cardoso.

Qual a importância do Crepop para a atuação da categoria, pensando nos compromissos da Psicologia com a sociedade e as políticas públicas e nos objetivos do Centro?
Acredito que a principal contribuição do Crepop, enquanto um centro de pesquisa e produção de referências em políticas públicas, é de orientar, dar e oferecer à categoria, possibilidades de se atualizar frente aos desafios de atuação em políticas públicas de uma maneira mais ampla. Sabemos que muitos profissionais da Psicologia não tiveram na sua formação disciplinas, unidades curriculares que correspondessem à questão das políticas públicas. Então, quando o Crepop foi criado, também buscou sanar um pouco, oferecer à categoria essa reflexão sobre a atuação em políticas públicas e se consolidou como um dos principais espaços do Sistema Conselhos. Um exemplo disso é uma das publicações que nós temos e que é muito importante hoje: a de referência para atuação no Sistema Único de Assistência Social. Ela traz uma contribuição muito grande, na medida em que informa e traz posicionamentos, reflexões, aspectos éticos relacionadas à prática da psicóloga e do psicólogo no contexto de assistência social. A publicação apresenta a parte orgânica dessa política pública, aborda desafios e possibilidades de trabalho, de modo que se possa pensar numa prática coletiva, que dê espaço para a produção de grupo, ao invés de focar, simplesmente, em uma questão individual. A partir da referência, é possível analisar, também, os marcadores, os contextos sociais que estão implicados na história e trajetória das famílias que são atendidas, por exemplo, pelo PAEFI [Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos]. É um exemplo de uma das publicações em que encontramos várias reflexões que nos levam a pensar uma atuação comprometida, então, com a transformação social e também local.

Durante esses 15 anos, podemos identificar alguma ou algumas pesquisas que se configuraram como marcos na atuação do Centro?
É até difícil listar qual referência e pesquisa, pois são várias. Nós temos, atualmente, mais de 20 produções que o Crepop do Sistema Conselhos executou e com temas muito amplos, desde educação, como a atuação do psicólogo na educação básica; atuação da psicóloga na saúde, no Sistema Único de Saúde; nas políticas de prevenção de HIV/Aids e de outras DSTs [Doenças Sexualmente Transmissíveis]. Temos também no sistema prisional, temos nas medidas socioeducativas, violência contra mulheres, questões étnico-raciais, trânsito, CRAS/SUAS. São muitas temáticas, muitas políticas diferentes que ao longo desses 15 anos o Crepop vem voltando a sua trajetória de pesquisa e aprofundamento. Não existe um tema único e específico sobre o qual nos debruçamos, mas aqueles temas que são eleitos pela categoria, principalmente durante os Encontros Nacionais de Psicologia, os Congressos Nacionais e Regionais e também das APAFs [Assembleia de Políticas da Administração e Finanças do Sistema Conselhos de Psicologia]. São dessas atividades que saem as decisões de temáticas que o Crepop precisa pesquisar. Isso é uma questão muito interessante do Sistema, porque nós temos uma forma de organização muito democrática. Então essas temáticas são sempre escolhidas a partir da realidade da categoria no momento.

Quando foi implantado o Crepop em Minas Gerais? Como você avalia os quatro trabalhos realizados em âmbito regional e de forma independente pelo Centro?
A implantação do Crepop no Sistema Conselhos deu-se no ano de 2006. Por isso, estamos comemorando os quinze anos, inclusive com a realização do III Seminário Regional de Políticas Públicas do Crepop-MG, que aconteceu nos últimos dias. Então, estes trabalhos vêm ocorrendo desde o ano de 2006. Embora o Crepop Minas esteja ligado ao Sistema Conselhos, ou seja, toda a organização de pesquisas nacionais são, também, executadas no âmbito regional, o nosso Centro também tem um diferencial interessante que é a atuação em pesquisas e produções independentes. Cito duas pesquisas importantes: a referência sobre o CRAS [Centro de Referência de Assistência Social] e a outra é o trabalho nas Associações de Proteção e Assistência ao Condenado (APACs). Quando o material sobre atuação no CRAS foi lançado, eu ainda não estava no sistema, mas até hoje é um material de referência de muitas psicólogas e psicólogos que atuam no CRAS. É extremamente acessado e divulgado, as pessoas procuram muito. Como falei anteriormente, nós sabemos que atuar em políticas públicas é algo recente na história da Psicologia, isso começa a partir dos anos 70 e 80. Hoje está muito mais consolidado, principalmente com o advento do SUS e depois, também, com a criação do SUAS. Aí a psicóloga e o psicólogo se inseriram cada vez mais no contexto das políticas públicas. Então, este material tem norteado bastante a categoria neste contexto. O outro material regional que acho extremamente importante é sobre o trabalho da psicóloga e do psicólogo no sistema prisional, mais especificamente nas APACs. A APAC já ganhou o Brasil, está em vários estados, mas sabemos que o maior número dessas associações está em Minas Gerais, onde têm trajetórias muito marcantes. E era um contexto de trabalho muito singular, que se difere, em alguns aspectos, do sistema tradicional penal. Eu acho que essa produção é extremamente importante e rica para entender essa regionalidade de atuação do profissional da Psicologia no estado de Minas Gerais, dentro dessa política. São dois exemplos de publicações regionais que acredito que contribuíram muito para a categoria em seu cotidiano.

E quais são os projetos e pesquisas que estão sendo elaborados atualmente pelo Crepop de Minas Gerais?
Atualmente, o Crepop Minas vem executando pesquisas do calendário nacional. Estamos finalizando a pesquisa nacional voltada para as instituições de acolhimento, já fizemos todas as etapas no âmbito regional, em breve teremos uma publicação a esse respeito. E já estamos nos organizando para iniciar a pesquisa sobre as políticas públicas relacionadas à prevenção ao suicídio. Então, são duas grandes pesquisas que o Centro tem executado atualmente. No âmbito mais regional, temos apoiado algumas pesquisas, como o perfil da psicóloga e do psicólogo, que vem sendo produzido pelo CRP-MG e outras questões relacionadas à parte técnica de temáticas como atuação da psicóloga e do psicólogo nos processos de avaliação para cirurgia bariátrica; no contexto das emergências e desastres, que é uma temática que, também, está para ser executada. Isso também é interessante do Crepop, que, além de pesquisas específicas, nas quais o Centro assume, nós também apoiamos algumas questões técnicas de pesquisa ou de publicações que vêm das demandas das comissões temáticas do Conselho Regional de Minas. Destaco, sem dúvida, as pesquisas sobre as instituições de acolhimento e as políticas relacionadas à prevenção ao suicídio. São duas grandes pesquisas, importantíssimas.



– CRP PELO INTERIOR –