Entrevista: “O preconceito racial conduz a uma das maiores violências que podemos produzir”

No mês de novembro CRP-MG realizará campanha sobre o compromisso da Psicologia no enfrentamento ao preconceito étnico-racial

Conselheiro Filippe de MelloO Brasil dedica o 20 de novembro ao Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. O Conselho Regional de Psicologia – Minas Gerais (CRP-MG), atento e implicado com a urgência de um trabalho de sensibilização étnico-racial, inicia uma campanha dirigida às(aos) psicólogas(os) e à sociedade. O ponto de partida da ação é a entrevista com o psicólogo e integrante da Comissão de Psicologia Relações Étnico-Raciais do CRP-MG, Filippe de Mello.

Pesquisa realizada em 2017 revelou que 98% das(os) brasileiras(os) entrevistadas(os) admitiram que há racismo no país. No entanto, apenas 1% se reconheceu como “muito preconceituosa(o)” e 54% se situaram na faixa das(os) “não preconceituosas(os)”. Em contrapartida, 72% das(os) negras(os) afirmaram já ter sofrido algum tipo de discriminação. O estudo confirma o paradoxo: o Brasil é um país de muito racismo, mas poucas(os) se reconhecem racistas.

Qual é o pior efeito do preconceito racial brasileiro?
Filippe: O preconceito racial conduz a uma das maiores violências que podemos produzir contra os sujeitos, que é o apagamento do outro enquanto pessoa que deve ter seus direitos respeitados pela sociedade, pelo Estado. Em um momento como o que estamos vivendo no Brasil, é mais que importante refletir sobre a questão étnica do ponto de vista da caricatura. Veja o indígena, por exemplo: em todo 19 de abril fantasiamos as crianças. Estamos falando de fantasias que dizem de um povo tradicional, que constitui o sangue de todas e todos nós. Obviamente que isso tem uma história. Não começou ontem. A estigmatização é um processo histórico e continuamos a não entender a cultura de indígenas, quilombolas, negros, e repetimos nosso preconceito em nossas atitudes. O mito da democracia racial é uma justificativas falaciosas que sustenta tais ações, já que o imaginário que apascenta a desigualdade é o de que “tenho sangue de preto” ou “minha avó era negra”, mas sem pensar ou se aproximar “do que é ser preta ou preto no Brasil”, perpetuando o racismo quando se “tenta”, por meio do mito da democracia racial, se igualar “em cor”, mas jamais na experiência viva do que é ser.

Como não reproduzir esse preconceito no atendimento psicológico?
Filippe: Devemos ter em mente pelo menos três cuidados: não reproduzir violências simbólicas por meio da própria linguagem e na forma de conversar com a pessoa atendida; desvelar o racismo junto a esse sujeito, mostrando situações que às vezes já estão cristalizadas em seu cotidiano e que passam desapercebidas; e ter um olhar a partir de um “não saber”, reconhecendo que o modo como vive não somente territorialmente, mas afetivamente, constitui sua identidade. Fazemos um convite para que a categoria lembre que nosso exercício é científico e técnico. Considerar, por exemplo, a Resolução CFP nº 018/2002, que estabelece que “os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão contribuindo com o seu conhecimento para uma reflexão sobre o preconceito e para a eliminação do racismo”. Ter um olhar que não recrimina, mas que reconhece as condições daquele sujeito. Assim é possível compreender se existem ali vulnerabilidades e quais são elas. Jamais alimentar uma questão de juízo, de senso comum, mas uma direção técnica.

Como a(o) psicóloga(o) que atua na atenção básica pode atender nesse cuidado?
Filippe: A primeira delas é assumir um duplo desenho: o campo individual e o coletivo. Eu posso ser racista (e não saber) ou não gostar de gente idosa, por exemplo, mas não posso imprimir isso no meu atendimento. Não importa o que eu acredito, o que eu acho, minha opinião. Naquele local, no espaço de cuidado, é requerido uma(um) profissional. Esse é o primeiro convite. Trabalhar com política pública não é fácil. Mas o primeiro ponto é se estou ali, que eu consiga separar o que é meu do que é do outro. Aproximar mais do exercício científico é romper com o senso comum, mantendo-me em constante atenção em relação aos meus preconceitos. Então, passamos para o segundo ponto, que é aquilo que eu acredito em relação à sociedade. Não posso perder de cena a realidade das pessoas e suas decisões culturais. Tenho que conhecer como aquele sujeito vive. Quem vem ao meu consultório está no mesmo Estado que eu, no mesmo país, às vezes, na mesma cidade. Vai além de empatia. Não é pressupor alguma coisa. Entender que a pessoa tem uma história e que temos pontos em comum. Preciso dar conta de reconhecer isso que me humaniza e que é o outro que me diz. Como a reforma psiquiátrica brasileira, que tem o atravessamento do afeto. Minha escuta terá de ser, sempre, em direção ao cuidado do outro.

Sobre a solidão da pessoa negra na sociedade, como a Psicologia pode atuar?
Filippe: Essa é uma triste realidade da população negra. Os dados são muitos cruéis. A quantidade de mulheres negras nos conventos é muito maior; elas casam muito mais tarde por ter dificuldade de encontrar uma relação respeitosa. Devemos lembrar que os marcadores da negritude e de gênero incidem sobre o corpo da mulher negra. A solidão vem ocupando diversos espaços da vida. Que retomemos os estudos sobre identidade para lembrar que a construção dessa identidade é para ser quebrada, rompida, metamorfoseada. Mas, sem perder de vista que tudo que aparece para mim, enquanto fala do outro, não pode ser banalizado. O sofrimento não é banal. Como exemplo, quando chega uma mulher colocando a questão do preconceito que sofre em relação a seu cabelo, essa escuta deve ser atenta. Temos que reconhecer o sofrimento e não tratar como “algo menor”. É possível construir pertencimento. Abandonar o senso comum e o juízo de valor. Acolher e cuidar. E sempre retomar a ordem ética. O que vier a ser construído deverá ser da ordem do cuidado, da melhora da condição de vida enquanto subjetividade, no mínimo. Dar outro lugar para o sofrimento para que seja possível cuidar. E que tudo é possível. Somos adaptáveis para viver melhor, não para sofrermos mais. Reconhecer o discurso que justifica a xenofobia, o genocídio, a misoginia, o racismo nos servem para sua superação, não para sua manutenção. Podemos encontrar o ódio à diferença e como lidar com isso é o grande desafio ao qual somos convidados. Não precisamos ensinar às nossas clientes o que é ética, mas podemos questionar junto a elas se a vida como mulher negra no Brasil leva a ética em consideração. E não se trata da ética que está no Código de Ética do Profissional da Psicologia, mas da ética que nos une enquanto seres vivos em civilização. Que retomemos a poesia. Ler os grandes mestres da Psicologia pode ser um caminho, um reencontro.

Devemos fazer um recorte especial no atendimento à população idosa?
Filippe: Certamente. Existem diversas doenças que acompanham a população negra com maior prevalência que a população branca. E a atenção básica tem tido um olhar, ainda que aquém do desejado, para a percepção de certas prevalências. Devemos conseguir na formação, nos grupos de estudo, discutir essas doenças, principalmente entre as idosas negras e idosos negros. Este é um grupo que envelhece menos, pois envelhece com mais problemas de saúde e menos acesso a cuidados. É importante olhar para isso. Não temos uma política específica, mas podemos construir fazeres de cuidado no nosso cotidiano. Se entendemos que há algo recorrente, que há algo que se repete no sofrimento, temos que intervir.

Quais cuidados se deve ter com a população LGBTI?
Filippe: Durante muitos anos sustentamos uma nomenclatura chamada grupo de risco. Felizmente isso não existe mais porque, dentre os vários campos de saberes, a Psicologia foi entender o que acontecia e trabalhou na desconstrução dessa estigmatização. O discurso do grupo de risco sempre serviu para sustentar a manutenção do nosso preconceito. Ele faz sofrer, violenta. Nossa lógica é do cuidado. Ampliamos nossa condição de olhar para as pessoas e como elas vivem. Ao considerar o grupo LGBTI e o recorte étnico-racial sempre vamos pensar como existe uma maior exposição pelo fato do racismo ter construído corpos negros dessubjetivados, isto é, as mulheres vistas como objeto de prazer e gozo e o homem negro com uma maior carga de virilidade. Ambos como corpos e não pessoas. Essa lógica perdura até os dias de hoje e faz com que o público LGBTI se veja também enredado nessa trama de sofrimento que, por vezes, parece não ter fim nem limite.

Qual violência vem primeiro no nosso comportamento social?
Filippe: Racismo e machismo são inseparáveis em nosso país. Existem vários atravessamentos e um alimenta o outro. Temos que ter em mente, o tempo todo, que a desigualdade social radical se encontra onde a maior parte da população negra está: o maior índice de analfabetismo, a mais baixa porcentagem de pessoas que conseguiram concluir o Ensino Superior, a principal parcela que compõe o sistema carcerário, o aumento do genocídio em número e tipo de violência o e abuso sexual.

Para encerrar, devemos entender que a reflexão sobre o racismo é permanente?
Filippe: Sim. Enquanto profissional, nenhuma fala minha é irrefletida dentro do consultório, qualquer que seja a modalidade desse consultório: na Rua, de Rua, no hospital, na Clínica Particular. Tenho que ser criterioso. Não posso falar qualquer coisa de qualquer jeito. Somos uma pessoa só e por isso temos que cuidar muito bem do que fazemos e falamos. Refletir sobre o que dizemos, pensamos e fazemos. Conhecer e respeitar a história do outro. Cuidar muito bem do como a gente faz e o quê a gente faz. Se às pessoas negras não é possível o esquecimento do racismo porque não nos é deixado esquecer, que a prática profissional também não se esqueça que nosso trabalho diz respeito, radicalmente, numa redução do sofrimento alheio, não sendo possível, então, esquecer que o racismo mata.