21 maio O cansaço de precisar se defender: profissionais LGBTQIA+ relatam impactos do preconceito no exercício psi
Psicólogas(os) ouvidas(os) pelo Conselho apontam desgaste emocional, vigilância constante e sensação de desproteção na prática profissional
Jornalismo CRP-MG

Leonardo, Sebastião e Gabriela: psis LGBTQIA+ relatam as violências que atravessam suas histórias
Medir palavras, avaliar quais ambientes são seguros e lidar profissionalmente com violências que atravessam a própria história fazem parte da rotina relatada por psicólogas(os) LGBTQIA+ ouvidas(os) pelo Conselho Regional de Psicologia – Minas Gerais (CRP-MG) no Dia Internacional de Combate à LGBTfobia, celebrado em 17 de maio.
Os depoimentos mostram como o preconceito atravessa não apenas a vida pessoal dessa população, mas também o exercício da profissão e a saúde mental das(os) próprias(os) profissionais.
Marcas que atravessam a escuta
Para o psicólogo Leonardo de Araujo, crescer como homem gay deixou marcas emocionais profundas. “Muitos de nós fomos atravessados pelo medo da rejeição, pela vergonha e pela tentativa constante de parecer ‘aceitável’ para evitar violência, abandono ou humilhação”, afirma. Segundo ele, grande parte do sofrimento relatado por pacientes LGBTQIA+ está ligada à forma como a sociedade reage às suas identidades. “Você percebe o quanto aquela pessoa passou anos tentando não incomodar, tentando ser aceitável e tentando diminuir partes de si para sobreviver emocionalmente”, diz.
O psicólogo Sebastião Cunha também afirma que experiências de preconceito sofridas por ser homem gay influenciaram sua escuta clínica. “Ter passado por situações que me causaram muita dor antes do processo de aceitação me fez olhar de forma significativamente mais sensível para a dor do outro”, relata.
Mas acolher histórias que dialogam diretamente com experiências pessoais exige esforço contínuo, como pondera a psicóloga trans Gabriela Zin. “Temos que lidar com violência mantendo nossa postura profissional o tempo todo. É um trabalho interno em tempo integral”, reflete.
Sempre em alerta
Embora reconheçam avanços sociais e institucionais, as(os) entrevistadas(os) afirmam que o preconceito ainda aparece de forma silenciosa no cotidiano profissional.
Leonardo relata que muitas(os) profissionais LGBTQI+ evitam se expor em ambientes de trabalho. “Existe o cuidado constante com o quanto se fala da própria vida, o quanto se pode aparecer e o quanto determinados espaços profissionais realmente são seguros. Isso produz desgaste emocional”, afirma.
O psicólogo também chama a atenção para uma expectativa silenciosa de que essas(es) profissionais estejam sempre fortes e emocionalmente disponíveis. “Mas psicólogos LGBTQIA+ também se cansam, também se entristecem, também sentem medo e também adoecem”, pontua.
Para sustentar o trabalho diante dessas pressões, ele destaca a importância da terapia pessoal, da supervisão clínica e das redes de apoio.
Escuta qualificada
Leonardo afirma ainda que muitas pessoas procuram terapeutas LGBTQIA+ porque estão cansadas de precisar se defender dentro do próprio espaço terapêutico. Ainda assim, ele ressalta que uma escuta ética não depende apenas da identidade do profissional. “Empatia, sozinha, não basta. É preciso estudo, letramento, escuta genuína e disposição para rever preconceitos”, defende.
Gabriela também alerta para os riscos de atendimentos baseados apenas em “boa vontade”. Segundo ela, muitas intervenções ainda partem de referências cisheteronormativas e acabam produzindo microagressões ou impactos negativos no cuidado clínico.
Ela lembra de um episódio em que pais procuraram atendimento para um filho adolescente que cogitava iniciar uma transição de gênero, mas desistiram do acompanhamento ao descobrirem que a própria profissional era travesti. Para Gabriela, a situação evidenciou como o preconceito pode aparecer até mesmo em discursos aparentemente acolhedores. “Ali, o peso da violência decorrente do sofrimento dentro da própria família se escancarou para mim”, conta.
Na avaliação de Sebastião, oferecer um atendimento ético à população LGBTQIA+ exige justamente o reconhecimento da diversidade das experiências humanas. “É preciso se abrir ao novo e despir de preconceitos. Cada ser humano é diferente, inclusive dentro da própria comunidade. É preciso estar atento à diversidade do ser humano”, afirma.
Desproteção institucional
Outro ponto em comum entre os relatos é a sensação de desproteção diante de situações de LGBTfobia.
Gabriela acredita que denúncias de LGBTfobia ainda recebem respostas insuficientes. “A gente denuncia e tem a sensação de que não dá em nada”, lamenta. A psicóloga defende que profissionais que desrespeitam direitos da população LGBTQIA+ deveriam ser responsabilizados com mais rigor.
Para Leonardo, é necessário investir em políticas mais concretas de combate à discriminação e atenção à saúde mental da própria categoria LGBTQI+.
Já Sebastião ressalta que a proteção da população LGBTQIA+ passa também pela valorização da diversidade. Segundo ele, avanços legais foram importantes, mas ainda é necessário ampliar ações que promovam informação, inclusão e respeito às diferenças nos diversos espaços da sociedade.
Confira o post publicado pelo CRP-MG em homenagem às(os) psicólogas(os) LGBTQIA+:






