Os desafios éticos e técnicos que a Psicologia enfrenta nas políticas públicas

Conteúdos especiais sobre Psicologia e Políticas Públicas: entrevista com Paula da PaulaNesta edição da série de conteúdos especiais sobre Psicologia e políticas públicas, o Conselho Regional de Psicologia – Minas Gerais (CRP-MG) entrevista a psicóloga, professora de Psicologia da PUC Minas e supervisora de estágios na alta complexidade do SUAS em Betim, Paula de Paula. Ela discute os desafios éticos e técnicos das(os) psicólogas(os) que atuam nas políticas públicas.

Muitos aspectos abordados na entrevista também serão debatidos na etapa Sudeste do IX Seminário Nacional de Psicologia e Políticas Públicas, que será realizado nos dias 7 e 8 de junho, em Belo Horizonte. As inscrições de trabalhos para o Seminário estão abertas.

Quais desafios de ordem técnica a Psicologia enfrenta ao se inserir nas políticas?
O primeiro desafio é que as teorias não conseguem abarcar o real. Toda teoria, por mais desenvolvida que seja, é insuficiente para tratar a realidade. Como psicólogas e psicólogos, nunca estamos aplicando uma teoria à realidade e isso faz com que a gente ‘tensione’ os conceitos e as estratégias metodológicas. A teoria é um norte, mas ela não pode ser uma maneira de encaixotar, de prender, de aprisionar o psicólogo na perspectiva que já está criada. O segundo desafio é que quem trabalha com políticas públicas precisa sempre de muita coragem para o campo, senão você se encastela na universidade, começa a publicar desesperadamente, às vezes escutando, orientando ou mesmo supervisionando equipes. Mas é muito importante o contato, o desafio prático, que é uma espécie da clínica ampliada. Na prática você tem que se reinventar, às vezes desobedecer certas tipificações ou questionar o que é possível fazer fora do que está prescrito, pois a própria realidade te coloca este desafio que é apostar no diferente do que já está sendo feito.

Quais os desafios éticos essa inserção nas políticas públicas traz?
O maior desafio ético é você ser um profissional que dá prioridade à escuta do sujeito. O sujeito é soberano, ou seja, a subjetividade é soberana. Essa é a ética: você escutar verdadeiramente alguém ou grupos. Quem dá o tom da ética do psicólogo é sempre o sujeito, são os problemas ligados à constituição de determinadas subjetividades que sofrem por desigualdades de todas as ordens, por discriminações. O desafio ético é levar em consideração radicalmente o sujeito.

Qual a importância da reforma psiquiátrica para a inserção de Psicologia nas políticas de saúde pública?
A Psicologia aparece no cenário brasileiro quando se depara com a questão da cidadania do louco. Tínhamos o desafio de pensar a cidadania de um sujeito que do ponto de vista jurídico não era nem sujeito. A reforma psiquiátrica vem mostrar a sociedade inteira que o louco é uma pessoa e que a loucura é humana e precisamos considerar o trânsito dessas pessoas na cidade, que o modelo hospitalocêntrico retirava o louco do convívio social e era segregacionista e desumano. A reforma psiquiátrica não nasce antimanicomial, mas com a ideia de melhorar os serviços, humanizar os hospitais e nós radicalizamos com a luta antimanicomial, colocando o louco na cena social.

Isso inaugura uma maneira de fazer Psicologia, que é a matriz de todas as Psicologias, porque essa cidadania exigida para o louco, é exigida para todo o diferente. Então, a heteronormatividade começa a ser questionada, o padrão europeu branco macho começa a ser questionado. A luta antimanicomial inaugura uma Psicologia que põe no centro de tudo a escuta do sujeito e o respeito à diferença, sem que ela tenha que ser segregada, escondida, morta. A reforma psiquiátrica inaugura as próprias políticas públicas de saúde mental do SUS e isso aparece no SUAS, com a universalidade, a equidade. Os princípios do SUS também orientam o SUAS e todas as grandes políticas em que os psicólogos estão inseridos.

Há muitos preconceitos relacionados ao SUAS. Como você compreende essa percepção da assistência social como caridade e não como um direito constitucional?
A minha tese de doutorado foi muito ligada ao trabalho de psicólogos no SUAS, porque é um desafio trabalhar com o público vulnerável ou de risco. O SUAS funciona para uma parcela da população que já sofreu violação de direitos, que foi vítima de serviços públicos que nunca deram conta de respeitá-las, de considerá-las como sujeitos. Na verdade, você não pode ir com o sentimento da caridade e nem da solidariedade social. Mas como fazer para você ir para o trabalho sem estar destacando a necessidade daquelas pessoas? É um paradoxo, porque é um serviço para aquele que não desfruta da cidadania plena. Como fazer para os psicólogos não trabalharem com as pessoas a partir desse lugar? Pois elas só estão ali porque são carentes e a gente precisa tratá-las sem que elas fossem. A nossa ação nunca é uma ação solidária, embora seja uma ação amorosa.

No SUAS temos o desafio de trabalhar amorosamente, sendo que o amor não cumpre nem a função da paixão, nem da filia grega e nem é do santo cristão, que acaba tirando seu manto e dando para o outro ou que se envolve com estas questões e abandona a sua própria família, porque está cuidando do que necessita mais. Então, existe a necessidade do psicólogo rever o motivo pelo qual ele se liga a uma política pública, como o SUAS. Qual é o motivo? Por que ele está ali? Para ele não se perder naquele trabalho. Às vezes, achamos que é preciso sentir a dor do outro para saber o que ele está dizendo, mas não, basta que você considere que o outro tem uma dor legítima e só ele pode dizer dela e você consegue respeitá-lo e ajudá-lo a superar aquilo.