Psicologia em Foco discutiu formas de enfrentar a violência sexual contra crianças e adolescentes

O Conselho Regional de Psicologia – Minas Gerais (CRP-MG) promoveu na quarta-feira, 25 de maio, uma edição do ciclo de eventos Psicologia em Foco sobre estratégias para se enfrentar o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes. Participaram da mesa de discussão, a psicóloga e supervisora clínica do Projeto de Pesquisa e Extensão com crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual (CAVAS) da UFMG, Cynthia Tannure, e o representante da Oficina de Imagens no Ecpat-Brasil, Rodrigo Correa. O debate foi coordenado pela psicóloga e gerente técnica do CRP-MG, Flávia Santana. Para ver as fotos do evento, clique aqui.

Cynthia Tannure afirmou que para se pensar formas de enfrentar a violência sexual contra crianças e adolescentes é necessário reconhecer que há fatores variados e complexos envolvidos nesse tipo de situação. Dentre esses fatores, a psicóloga destacou: a desigualdade socioeconômica, que exerce forte influência nos casos de exploração, as relações de dominação de gênero, a relação de dominação do adulto sobre a criança e o tratamento que a cultura tem dado aos corpos, os apresentado como objetos de consumo e erotização.

Segundo a psicóloga, pesquisas sobre o tema revelam que uma parcela significativa de pessoas que sofreram agressões sexuais na infância se tornam pedófilas quando adultas. Estudos também mostram que as mulheres que foram vítimas de abuso sexual tornam-se vulneráveis, tendendo a se relacionar com parceiros exploradores e a aproximar, inconscientemente, suas filhas dos próprios abusadores. “Nós temos que considerar o caráter repetitivo e transgeracional que o abuso sexual comporta”, ressaltou Cynthia.

A psicóloga explica que o fato de algumas vítimas repetirem com outras pessoas a violência sofrida indica a impossibilidade de comunicar a vivência traumática por meio de representações e memórias. “Pensamos, portanto, que uma maneira de combater e prevenir a reprodução futura do abuso se dá pela possibilidade do indivíduo ‘historizar’ aquilo que lhe ocorreu, metabolizar o que se apresentou como horror sem nome, roubando-lhe a capacidade associativa e produzindo consequências nefastas ao seu processo de constituição. A experiência precisa se transformar em palavra e ser significada. Precisamos ofertar espaços de simbolização e acreditamos que a psicoterapia é um desses espaços tão necessários para lidar com o traumático”, argumentou Cynthia.

Cenário brasileiro – Rodrigo Correa, que atua em projetos de educação em direitos sexuais para crianças e adolescentes, destacou a importância de que se compreenda que há inúmeras violações associadas à violência sexual, como o tráfico de pessoas, o abuso sexual e a exploração. Assim como Cynthia, Rodrigo também chamou a atenção para o machismo e outras raízes históricas e culturais envolvidas no fenômeno. “É fundamental pensar nas perspectivas de gênero e orientação sexual num país, machista, patriarcal e heteronormativo como o Brasil”, defendeu.

Rodrigo Correa traçou um panorama das ações e políticas públicas criadas para combater a violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil. Segundo ele, o I Congresso Mundial dedicado ao tema, realizado há 20 anos, é um marco. “A partir desse Congresso os países começaram a organizar planos e a construir eixos para análise da situação”, explica. No caso do Brasil, a definição do 18 de maio como “Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes” é também um acontecimento importante, pois fortalece a mobilização da sociedade em torno do assunto. Dentre as conquistas, Rodrigo também ressaltou: a criação de condicionantes para que a realização de grandes obras e eventos não fomente a exploração sexual infanto-juvenil, o estabelecimento de protocolos de humanização e fichas de acolhimento dos casos, avanços na legislação e a estruturação de canais de denúncia, com destaque para o “Disque 100”, que atende todo o país.

A coordenadora da mesa, Flávia Santana, destacou que a invisibilidade também é um aspecto que precisa ser considerado quando o assunto é violência sexual e argumentou que a escuta é uma estratégia importante para o empoderamento das vítimas e a prevenção de novas situações de violação.



– CRP PELO INTERIOR –