CRP-MG inicia nesta semana série de conteúdos especiais sobre Psicologia e políticas públicas

Identidade e valorização profissional da(o) psicóloga(o) pautaram entrevista com a conselheira Érica Rocha

Entrevista Erica RochaO Conselho Regional de Psicologia (CRP-MG) inicia hoje (22) uma série de conteúdos especiais sobre Psicologia e políticas públicas. As reportagens abordam assuntos que serão trabalhados nos Eventos Preparatórios e no IX Seminário Nacional de Psicologia e Políticas Públicas – Etapa Sudeste. Para falar sobre identidade e valorização profissional da(o) psicóloga(o), um dos temas de debate, entrevistamos a conselheira do CRP-MG, Érica Andrade Rocha.

Em que medida a Psicologia está alinhada às demandas da maioria da população brasileira?
Existe um imaginário social do que deve ser a Psicologia: clínica, clientelista, focada no problema pontual do sujeito, seu sofrimento, a superação das suas dificuldades pessoais. Só que hoje a demanda da população nos exige mais, muito mais.

A inserção da Psicologia nas políticas públicas auxilia nessa aproximação entre a profissão e a sociedade?
A Psicologia deu um salto quando adentrou nas políticas públicas, sendo necessário compreender o sujeito de uma outra forma. Não estamos falando mais de “psicologismos” ou “sofrimento” somente, pois agora nossa atuação pensa no compromisso social, na cidadania, nos Direitos Humanos. No sujeito sendo inserido nas políticas públicas.
A população gosta muito de se ser atendida, cuidada, ouvida, acolhida, principalmente quando a profissional tem uma escuta de inserção e não de julgamento e segregação. Para mim, a Psicologia é isso.

A inserção nas políticas públicas representa um marco para a profissão?
Certamente. É um outro olhar, uma outra perspectiva, uma nova demanda, um novo público. Isso cria uma cultura de política pública e comprometimento do Estado em executar uma política ligada às necessidades da população.

Como o fato de psicólogas atuarem em áreas muito diferentes se reflete na construção da identidade profissional?
Acredito que as áreas são diferentes, mas a demanda é basicamente a mesma: o sujeito, o acolhimento, o cuidado. Cada uma trabalha da sua forma, na sua área, mas esperando o mesmo resultado, um sujeito autônomo, cidadão, protagonista.
A dificuldade é o grande hiato de uma formação acadêmica individualista e clínica, para uma profissional que provavelmente trabalhará num serviço público. Isso se dá em outras profissões também, a dificuldade do trabalho em equipe, do trabalho interdisciplinar, nem mais só multiprofissional. A identidade deve ser de uma profissional que seja defensora intransigente dos Direitos Humanos e que assuma essa pauta como sua bandeira.

No Brasil, ainda há dificuldade de se enxergar a Psicologia como um saber valorizado e reconhecido? 
Acredito que não. Me sinto muito contemplada com o fazer e acho que nas políticas públicas faz todo o sentido. Sei que o trabalho é árduo, difícil. Exige estudo, supervisão, muita dedicação. Mas acredito que precisamos entender as macroestrururas para entender que o trabalho é bem mais complexo do que pensamos.

Quais são as dificuldades enfrentadas por psicólogas para se inserirem no mercado de trabalho brasileiro atualmente? 
Hoje as grandes dificuldades são as frágeis relações de trabalho, poucos concursos públicos, vínculos precarizados, salários baixíssimos. É o sucateamento. Temos governos que não investem em políticas públicas e pensam que esse papel não é deles. Na Assistência, por exemplo, volta-se para o modelo de ações fragmentadas, não continuadas, feitas por caridade e não por dever e responsabilidade do Estado. E muitos profissionais não veem isso como um grande problema, mas sim como algo natural.

Qual é a avaliação que se faz sobre as questões de jornada de trabalho e remuneração?
Geralmente são jornadas de trabalho incompatíveis com o serviço e salários pouco maiores que o salário mínimo. Os concursos, em sua maioria, são gerais. Na Assistência Social, os concursos não são específicos e não sinto as profissionais vinculadas a esta prática, pois não possuem supervisão técnica e estudo. Sendo assim, acabam sendo coniventes com práticas higienistas, punitivas, segregadoras e que não trazem proteção social como deveriam.

Veja a agenda de Eventos Preparatórios que o CRP-MG realizará nos meses de março e abril em todas as subsedes.